sexta-feira, 12 de julho de 2013

where is bjork now?

 leia ao som de - Saeglopur Sigur Ros

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Quando cheguei em Reykjavik a emoção, euforia mais um monte de coisas tomaram conta de tudo que posso me lembrar.
Era como chegar na lua ou coisa parecida, cheguei no inicio da madrugada e não tinha mesmo noite, era verdade, o céu estava claro como as seis da tarde e nunca mais escuro que isso. Peguei um ônibus no aeroporto para o centro da cidade que fazia parada nos hostels, o meu era o último, era como 2 da manhã e já estava amanhecendo.
Não fiquei muito no hostel, só uma noite, no dia seguinte fui pra um couch do CS, era um casal, a menina era búlgara e o cara islandes da gema, se assim posso dizer, no primeiro dia dediquei a andar pela cidade, achava graça das lojas de souvenir que exibiam camisetas com dizeres como "where is bjork now?" e "simpathy for de devil" com um desenho de um homem palitinho dando um lenço pra um demônio, também palitinho, sentado em um banquinho chorando e talz. O senso de humor islandês ficava estampado em todo lugar, eu amava, a minha piada favorita, que ouvi de muitos locais era a charadinha "o que fazer se você se perder em uma floresta na Islândia? - fique de pé" - as árvores islandesas são sempre anãs, os vikings cortaram todas antes de perceber que em chão de lava o crescimento de qualquer coisa é muito difícil e demorado, que dó.
Realmente não vi a Bjork, nem o Jonsi, mas por todo canto que me perguntavam o que eu estava fazendo lá eu dizia que era por causa do Sigur Ros, até o dia, em um festival de música em uma cidade litorânea - como todas-  um mocinho disse que aquela era a cidade onde Jonsi tinha sua casa de verão e me levou até lá, entrei no jardim e fiquei curiando pela janela, observando cada detalhe da casa do Jonsi, era surreal de tão incrível.
Bebendo cerveja Viking (claro) conversando com essa galerinha singular pra burro, era como se ser tão poucos no mundo todo obrigasse as pessoas a serem naturalmente engraçadas, amáveis e eternas na memória, como pra se perpetuar de alguma maneira.
Topa foi uma guria que me levou pra passear pela cidade nos primeiros dias, morava na casa dos pais com a namorada, passamos em sua casa e todos eles jantavam com a namorada conversando super entrosados como se  a menina fosse membro da família, o amor entre duas mulheres ficou muito nitidamente natural naquele contexto como sempre deveria em todo lugar do mundo, eu achei tão lindo, alí na Islândia já estava acontecendo. Ela me levou pro seu bar favorito na cidade e me inspirou a comer panquecas americanas com bacon e muito syrup em cima, eu nunca me esqueci de nada disso, até hoje faço reproduções desse prato quando possível.
Fiz passeios turísticos dois dias, mas eram caros e detestava fazer tudo com minutos marcados, mas foi com esses passeios que fui ver os geysers e a lagoa azul.
Os geysers- coisa mais absurda desse mundo, você fica lá impaciente vendo aquela água borbulhar, fede pra burro, tipo enxofre e aí pumba, a água explode loucamente pelo ar, muito alto, muito braba, muito linda e te molha e te respinga e você tipo chora.
A lagoa azul- coisa tão surreal, tinha que ficar pelado antes de entrar, era regra na Islândia, antes de entrar em qualquer piscina, banho geral sem nenhuma peça, na lagoa foi assim, era quentinha e tinha um bar no centro, tomei um suco de muitas muitas coisas, grosso e azedo, às vezes a água ficava muito quente, me dava um pouco de medo, e o spa deixava uns baldes com a lama branca extraída do fundo pro povo passar no corpo, e eles realmente passavam, em mim só deu muita coceira.
Sorte os meus hosts me convidaram pra acampar com eles no terceiro dia, acampar na Islândia era surreal porque você ia dormir com muitos muitos agasalhados e sacos de dormir pra às três da manhã, quando o sol já estava bem no alto você começar a semi fritar que nem uma coxinha de padaria e sem escuridão total às vezes era difícil pegar no sono.
Acampando percorremos o lado sul da ilha, vimos quedas d'água cheias de beleza, vales, centenas de ovelhas, inúmeros arco-iris, cidadezinhas, festivais, praias de areia negra e tanto, tanto espaço, eu ouvia Sigur Ros o dia inteiro, e caminhava, e agradecia, e chorava e comia, que delícia era a comida de acampamento, e agradecia mais um pouco, e chorava de emoção de novo.
Ultimo dia fizemos uma trilha em busca do rio que corria quente, falávamos dele desde o primeiro dia, e a caminhada foi longa mas tão gratificante, a vista era de tirar o folego e a água era realmente tão quentinha, tão cristalina, tão incrível e acolhedora, sabe aquela expressão "agora eu posso morrer" então.
Foi difícil ver a Islândia sumir quando a aeronave já alcançava as nuvens.
Foram oito dias que foram anos dentro de mim, eu entendi tudo, eu entendi tudo e parecia abraçar o mundo, sinto saudade muitas vezes, a saudade misturada com agradecimento por ter conseguido, é um dos sonhos realizados mais doces que tive, trabalhei duro, pedi ajuda, guardei todo centavo pra aquela viagem e nossa, foi o dinheiro mais bem gasto de toda minha vida.

A Islândia é minha, aqui dentro, para o todo sempre até o fim, e desculpe-me, nunca vai caber realmente em palavra alguma.

Inní Mér Syngur Vitleysingur


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