sábado, 21 de setembro de 2013

nosso universo no jardim

posso me lembrar que o sol na holanda apesar de escasso, quando vinha era muito mais belo que qualquer sol no mundo, talvez devido a sua ação renovadora nas pessoas, talvez tamanha era a ansia que todos tinham por ele e como em amor comemoravam sua chegada.
nos dias de sol nós, eu e as meninas, em nosso universo, gostávamos de brincar no jardim, em principal pulando na cama elástica, elas gostavam muito de brincar comigo, porque com meu contrapeso elas conseguiam ir muito mais alto, muito mais.
'vamos jenny, só com você eu chego muito alto'
e lá íamos nós pular e pular, e eu realmente conseguia fazer elas chegarem muito alto, era só alternar nossos pulos, e sempre de mãos dadas, elas não iam se não estivéssemos de mãos bem dadas, as três, e riamos, e riamos, e depois jogávamos nossos corpos inteiros na cama, que iam pulando até sossegar, e elas rolavam por cima de mim  e todas riamos felizes, e eu lembro dos raios de sol que iluminavam suas faces rosadas, um sol claro e luminoso, suas faces e seus dentões de crianças sorrindo, o céu azulinho, azulinho, com nuvens cortadas de lado à lado.
às vezes me pediam para fechar os olhos, e me faziam massagem nos pés e nas mãos e nos braços, com água e sabão pra refrescar, levavam muito à serio, depois revezávamos, era a simplicidade mais doce de nossas vidas.
"te amo meninas"
"te amo jenny"


cócegas
abraços
beijos na testa

dessas memórias que são parte de mim
dessas partes de mim que em palavra o amor não cabe.


sexta-feira, 12 de julho de 2013

where is bjork now?

 leia ao som de - Saeglopur Sigur Ros

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Quando cheguei em Reykjavik a emoção, euforia mais um monte de coisas tomaram conta de tudo que posso me lembrar.
Era como chegar na lua ou coisa parecida, cheguei no inicio da madrugada e não tinha mesmo noite, era verdade, o céu estava claro como as seis da tarde e nunca mais escuro que isso. Peguei um ônibus no aeroporto para o centro da cidade que fazia parada nos hostels, o meu era o último, era como 2 da manhã e já estava amanhecendo.
Não fiquei muito no hostel, só uma noite, no dia seguinte fui pra um couch do CS, era um casal, a menina era búlgara e o cara islandes da gema, se assim posso dizer, no primeiro dia dediquei a andar pela cidade, achava graça das lojas de souvenir que exibiam camisetas com dizeres como "where is bjork now?" e "simpathy for de devil" com um desenho de um homem palitinho dando um lenço pra um demônio, também palitinho, sentado em um banquinho chorando e talz. O senso de humor islandês ficava estampado em todo lugar, eu amava, a minha piada favorita, que ouvi de muitos locais era a charadinha "o que fazer se você se perder em uma floresta na Islândia? - fique de pé" - as árvores islandesas são sempre anãs, os vikings cortaram todas antes de perceber que em chão de lava o crescimento de qualquer coisa é muito difícil e demorado, que dó.
Realmente não vi a Bjork, nem o Jonsi, mas por todo canto que me perguntavam o que eu estava fazendo lá eu dizia que era por causa do Sigur Ros, até o dia, em um festival de música em uma cidade litorânea - como todas-  um mocinho disse que aquela era a cidade onde Jonsi tinha sua casa de verão e me levou até lá, entrei no jardim e fiquei curiando pela janela, observando cada detalhe da casa do Jonsi, era surreal de tão incrível.
Bebendo cerveja Viking (claro) conversando com essa galerinha singular pra burro, era como se ser tão poucos no mundo todo obrigasse as pessoas a serem naturalmente engraçadas, amáveis e eternas na memória, como pra se perpetuar de alguma maneira.
Topa foi uma guria que me levou pra passear pela cidade nos primeiros dias, morava na casa dos pais com a namorada, passamos em sua casa e todos eles jantavam com a namorada conversando super entrosados como se  a menina fosse membro da família, o amor entre duas mulheres ficou muito nitidamente natural naquele contexto como sempre deveria em todo lugar do mundo, eu achei tão lindo, alí na Islândia já estava acontecendo. Ela me levou pro seu bar favorito na cidade e me inspirou a comer panquecas americanas com bacon e muito syrup em cima, eu nunca me esqueci de nada disso, até hoje faço reproduções desse prato quando possível.
Fiz passeios turísticos dois dias, mas eram caros e detestava fazer tudo com minutos marcados, mas foi com esses passeios que fui ver os geysers e a lagoa azul.
Os geysers- coisa mais absurda desse mundo, você fica lá impaciente vendo aquela água borbulhar, fede pra burro, tipo enxofre e aí pumba, a água explode loucamente pelo ar, muito alto, muito braba, muito linda e te molha e te respinga e você tipo chora.
A lagoa azul- coisa tão surreal, tinha que ficar pelado antes de entrar, era regra na Islândia, antes de entrar em qualquer piscina, banho geral sem nenhuma peça, na lagoa foi assim, era quentinha e tinha um bar no centro, tomei um suco de muitas muitas coisas, grosso e azedo, às vezes a água ficava muito quente, me dava um pouco de medo, e o spa deixava uns baldes com a lama branca extraída do fundo pro povo passar no corpo, e eles realmente passavam, em mim só deu muita coceira.
Sorte os meus hosts me convidaram pra acampar com eles no terceiro dia, acampar na Islândia era surreal porque você ia dormir com muitos muitos agasalhados e sacos de dormir pra às três da manhã, quando o sol já estava bem no alto você começar a semi fritar que nem uma coxinha de padaria e sem escuridão total às vezes era difícil pegar no sono.
Acampando percorremos o lado sul da ilha, vimos quedas d'água cheias de beleza, vales, centenas de ovelhas, inúmeros arco-iris, cidadezinhas, festivais, praias de areia negra e tanto, tanto espaço, eu ouvia Sigur Ros o dia inteiro, e caminhava, e agradecia, e chorava e comia, que delícia era a comida de acampamento, e agradecia mais um pouco, e chorava de emoção de novo.
Ultimo dia fizemos uma trilha em busca do rio que corria quente, falávamos dele desde o primeiro dia, e a caminhada foi longa mas tão gratificante, a vista era de tirar o folego e a água era realmente tão quentinha, tão cristalina, tão incrível e acolhedora, sabe aquela expressão "agora eu posso morrer" então.
Foi difícil ver a Islândia sumir quando a aeronave já alcançava as nuvens.
Foram oito dias que foram anos dentro de mim, eu entendi tudo, eu entendi tudo e parecia abraçar o mundo, sinto saudade muitas vezes, a saudade misturada com agradecimento por ter conseguido, é um dos sonhos realizados mais doces que tive, trabalhei duro, pedi ajuda, guardei todo centavo pra aquela viagem e nossa, foi o dinheiro mais bem gasto de toda minha vida.

A Islândia é minha, aqui dentro, para o todo sempre até o fim, e desculpe-me, nunca vai caber realmente em palavra alguma.

Inní Mér Syngur Vitleysingur


quinta-feira, 6 de junho de 2013

Dominique

Chegamos na estação de trem de Skopje por volta das dez da manhã.
O taxista não conseguia encontrar o endereço, pediu pra gente o telefone de nossa anfitriã e ele mesmo ligou pra ela com a intenção de pedir referencias, achei inusitado porem ótimo, já estava tão apaixonada pela Macedônia nesse instante aí.
Eles se comunicavam em macedônio, daria um rim pra entender qualquer palavra que fosse daquela idioma que me instigava a audição, e então chegamos, Dominique nos esperava na porta de seu prédio e foi amor a primeira vista.
Uma senhora de 65 anos, de cabelos curto arroxeados, amiga de nosso amigo querido "Quem é amigo de Antoine é mais que bem vindo em minha casa" disse ela a sorrir e assim foi.
O prédio era cinza, seu apartamento o lugar mais colorido do mundo.
O pai havia sido um jornalista militante politico que todos os dias fazia um desenho aquarela de sua esposa e essas aquarelas estavam espalhadas pelo apartamento.
Eu e minha amiga ficamos hospedadas em um quarto laranja com fotos de abobaras e uma vista para a doce Skopje, era tanto amor.
Dominique sabia tudo sobre a cidade, francesa de Dijon morava na capital macedônia já há muitos pares de anos e conhecia todos artistas e políticos da região, nos levou em todo canto, do lado árabe ao lado ocidental e nos apresentou pessoas incríveis, e restaurantes e historias tantas, de terremotos à danças tradicionais do povo roma.
Quando falamos de amores incomuns , me levou em um corredor e me mostrou a foto de uma linda moça de cabelos cacheados "foi minha namorada por três anos, um dia partiu"
Dominique nos contava historias de tantos amores na realidade, tinha dois filhos mestiços de dois pais japoneses diferentes, cada um deles vivendo suas vidas em lugares distintos do mundo.
Nos levou no bairro roma, Chutka, onde casamentos tradicionais coloriam as ruas, nunca teríamos conseguido ir lá sem ela e agradeço muito.
Ah quantas histórias incríveis me contava Do, podia escrever um livro todo só com elas.
Um dia bebemos Rakija, a bebida forte dos povos balcãs, e embriagadas revelamos paixões em comum e segredos cheios de sonhos.

Dominique reclamava da solidão.

E eu nunca deixei de querer voltar.

Seus olhos se encheram de lágrimas quando partimos.

E os meus também.

Ela.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

feliz aniversário uma única vez.

Uma semana antes do meu aniversário, na hora do café da manhã, Amber me perguntou:
- Jenny, você não fica triste de passar seu aniversário longe de sua família?
eu respondi sem pensar duas vezes
- Até fico, mas eu quero partilhar isso com vocês também, será apenas uma vez e será muito incrível, eu sei.

Como de costume em aniversários holandeses, a família te acorda no café da manhã, eu acordei cedo só pra tomar banho e me arrumar e fui deitar fingindo que não sabia de nada, escutei as meninas correndo pela casa, Suzanne também e eu fingindo dormir, lembro que um cara veio trocar a lampada da cozinha e nunca mais parou de falar e meu coração já apertadinho, comecei a ter medo que tivessem me esquecido, só que claro que logicamente NÃO!
Acordaram-me cantando a doce canção de aniversário holandesa com croissants e geleia e muitos presentes, Hanna me deu minha sobremesa favorita, as famosas Soesje, Amber me deu um caderno porque sabia que eu amava escrever o tempo todo, e Mark e Suzanne, a Mark e Suzanne me deram uma Nikon D40 e eu tremia, eu chorava, eu sei lá o que, queria abraça-los até esmaga-los mas acho que eles achariam estranho, então não o fiz.
Durante o dia Kelsey, minha melhor amiga daquele ano, a canadense mais surrealmente linda do cosmos, veio em sua bike amarela me trazer presentes, cds, escritos, postais e doces, muitas mensagens vieram do Brasil também, eu me enchia de universo.
Anoite a família me levou pro Rodizio, o restaurante brasileiro que ficava na praia de Scheveningen, eu achava o nome bem bobo no entanto, mas fui toda feliz da vida, já fazia 11 meses que não comia comida brasileira e chegando lá corri pro buffet e saí colocando tudo no prato, farofa, feijoada, pão de queijo, sim pão de queijo, quando olhei pra trás vi que os holandeses me copiavam e eu dizia "é assim mesmo" eles não faziam ideia de como funcionava essa coisa de  se auto servir, coisa nada comum na Holanda, e foram me copiando. Fiquei frustrada porque todos os funcionários do restaurante eram portugueses ou cabo-verdianos, não encontrei um único brasileiro pra contar a história. Tinha um telão enorme passando lambada, os garçons não paravam de trazer carne, Mark tomou uma caipirinha e ficou bebadinho, o restaurante era uma farra resumindo, muita informação, eu queria rir não sei, os holandeses não sabiam pra onde olhar, o que sentir, eles sempre em ambientes extremamente organizados, de repente alí naquele caos cheio de delícias, e era tanta bunda naquele telão que eu preferi nem dizer nada.
Aí veio o ápice, parou tudo, colocaram uma Bete Carvalho estourando os tímpanos e três meninas semi nuas, com pena, tanga e tudo o que tem direito, desceram pro salão e começaram a sambar loucamente em cima dos clientes, levando ao delírios os pais de família e encantando quem quer que fosse, chamaram Amber pra dançar e ela foi, eu fui junto, as dançarinas eram de cabo-verde também, mas sambavam tão lindo, Suzanne tinha a boca aberta, nem conseguia assimilar.
Voltamos pra casa todos cheio de energia, Mark bêbado de caipirinha, foi levado pra cama guiado pelas filhas, eu fui dormir cheia de amor, alegria, agradecimento e saudade.
Dia seguinte, me deixaram um bilhete no balcão da cozinha

"Jenny, muito obrigada por ter trazido o Brasil pras nossas vidas"
Mark, Suzanne, Hanna e Amber

e eu chorei.

Amber e eu

As dançarinas


sábado, 23 de março de 2013

ensaios sobre a economia

Economizar, essa é a palavra de ordem de toda e qualquer au pair que se preze.
Eu fiz o mesmo, todas fizemos e quem não fez está mentindo.
Fiz trabalhos ridículos para uma grana extra, como preencher buracos com areia e não me peçam pra explicar, nas compras da família sempre incluía itens para minha pessoa, nas viagens os lanches de rua mais econômicos, levava lanche da casa grande, só andava de trem em horário fora de pico que tinha desconto, me hospedava na casa de qualquer pessoa, amigo de amigo, tio do amigo do primo do cachorro, ia de bike pra todo canto, pegava carona de uma cidade à outra com um bando de gente desconhecida, cinema era luxo, alugava filmes na biblioteca, no verão era só um euro, sucesso!
Roupas novas só na Zeeman a loja mais barata do mundo, jantava no restaurante da Hema que era quase de graça, no Burger King fazia questão do menu de 1.99 que eles nem divulgavam, sim, eu pulei catraca e dei de joão sem braço em trens e metros em diversas cidades e não me envergonho disso, sorvete de sorveteria só se estivesse com as crianças e logo com a carteira da família, caso contrário só no mercado, andava com colherinhas plasticas na bolsa e só comprava sobremesa no Albert Hein e afins. Roubava lenços de papel da casa, museu só os que aceitavam o cartão do museu, dispensava passeios pra passar o dia com a família onde não gastava com nada, o que era bizarro, pois apesar da pobreza também comia nos melhores restaurantes e bebia vinho todas as noites e morava em uma casa toda rica e desfrutava muito desses pequenos luxos, talvez mais que os próprios donos que só trabalhavam o dia inteiro.
E apesar da extrema pobreza não me importava em nada, sempre dava um jeito, e fiz tudo que o tempo me deixou fazer, e acho que não aproveitei em menos, a pobreza me levava à situações cômicas e pessoas incríveis que certamente não teria conhecido em restaurantes e ou hotéis de luxo.
Eu ganhei muito mais coisa, muitas mais, que dinheiro no mundo inteiro não compraria nem se ele quisesse. Sorrisos, afagos, piqueniques, viagens de bicicleta, gente inacreditável de incrível pelas estradas, histórias cheias de fascínio no antes de dormir, amores, risos, rostos, faces e lágrimas de saudades com promessa de pra sempre.

o coração será sempre gratuito

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

ensaios sobre Den Haag

Eu morava em Den Haag, mentira, na real morava em Nootdorp nos subúrbios da cidade, mas era em Den Haag onde tudo acontecia, ou não, eu particularmente amava ir pra lá pedalando, 40 minutos de pura delicia, ainda mais quando os ventos do mal estavam em cena, chegava no centro da cidade sem sentir mais minhas pernas.
Nos bares pedia sempre a mesma coisa, a cerveja branca (witte biertje) com limão no fundo, meu lugar favorito era sem duvida a biblioteca gigante, onde muitos filmes eram alugados por apenas 2 euros a semana, nas ferias era apenas 1 SUCESSO. Triste era quando o filme era norueguês com legendas somente em holandês, hounf.
Den Haag é a capital parlamentar da Holanda, onde a rainha mora, onde fica todos os consulados e embaixadas e onde os julgamentos internacionais acontecem no International Court of Justice das Nações Unidas.Ui!
Lá também fica a praia mais famosa da Holanda, Scheveningen, e se você acha que esta falando esta palavra certa não está não, tenha certeza. Os bares da praia eram montados no verão e iam ao chão no inverno, afinal fui a praia no inverno uma vez, com mil casacos, toda serelepe e de repente pensei que fosse morrer de tanto frio e meu corpo seria encontrado dias depois recoberto em areia na minha primeira semana no pais, resumindo, foi horrível e traumatizante. Nem no verão, eu ousei colocar nem a ponta do meu dedo mindinho naquela água e não me arrependo nada.
A praia era feia mas o mais legal eram as construções ao entorno, como um resort gigante que não lembro mais o nome, parecia um castelo de filme, tinha também um treco lá que não lembro mais o que era, mas era como píer gigante que dava pra andar dentro e talz, e na praia também ficava o restaurante doido brasileiro onde passei meu vigésimo segundo aniversário.
Gostava de levar Hanna e Amber pra Den Haag, pro cinema era o mais divertido, no tram elas só faltavam subir no teto e eu fingia que não as conhecia muito bem, quando fomos em Madurodam, o museu que tem a Holanda TODA em miniatura, quiseram fazer gracinha e ficaram presas na porta giratória, eu rio dessa lembrança até hoje.
Den Haag me viu partir em viagem muitas vezes, me viu voltar, me viu com as amigues lindas atravessando a cidade em nossas bicicletas coloridas, foi onde aprendi holandês e encontrei muita gente esquisita, comi muito kebab nos bairros árabes e me entupi de marshmallows.
Eu voltaria em Den Haag e abraçaria com ternura o primeiro poste que encontrasse, embora quando morava lá jamais pensei que um dia faria.

Danças na areia e riso em fim de tarde multicolorido.

Minha melhor fotografia verbal da cidade abaixo do nível do mar mais legal do mundo.







sábado, 26 de janeiro de 2013

aquele que se sentou ao meu lado

Entrei na aeronave, sentei, ainda em choque, não tive reação alguma, ainda não tinha ninguém do meu lado, sempre me pergunto quem vai ser essa pessoa, porque pode ser agradável ou um terror absoluto, no mais às vezes fico feliz quando não senta ninguém, em aviões então, classe econômica é claro pra mim, e a falta de espaço é obvia, nos voos da KLM eu teria duas mantas azuis felpudas e não teria que me preocupar se a pessoa fosse uma completa bossal.
Ainda ficava na mente o olhar dos amigos que foram no aeroporto se despedir, meu namorado na época, todos eles chorando e eu partindo, ainda não absorvia direito.
Estava quase todo mundo embarcado e ainda ninguém havia ocupado o assento ao meu lado, já estava conformada com a solidão, quando então um moço alto e bonito apareceu, ele olhou pra mim como se já nos conhecêssemos, como se estivesse me dizendo "aí está você, cheguei finalmente".
Ele realmente estava meio atrasado, e depois que se sentou pouco depois a aeronave entrou em processo de decolagem, eu ainda em estado de choque, e em poucos minutos já estávamos no ár, ainda nenhuma lágrima, foi então quando resolvi olhar pela janela e vi são paulo sumir, e quando são paulo sumiu eu chorei, chorei quase que por meia hora soluçando e tudo, o moço ao meu lado não disse uma palavra mas estranhamente senti que não estava sozinha, quando finalmente parei de chorar ele então resolveu iniciar uma conversa.
E conversamos por exatas 11 horas que se seguiram, como se fossemos amigos de longa data, assistimos a um filme, que eu recomendei "where the wild things are", cada um em sua tela, mas ele fazia questão que estivéssemos sempre sincronizados, ao fim do filme olhei pra ele e percebi que chorava sorrindo, sofri de uma paixão de momento, claro, tínhamos nossos ombros encostados e foi todo nosso contato físico e pra mim isso foi muito bonito de verdade.
A viagem chegava ao fim, já podia ver a colcha de retalho que formavam os pastos holandeses enquanto o piloto esperava permissão pra aterrissar, o céu cinzento como seria quase todos os dias, ansiedade e medo, mas olhar pra Elmar dava uma paz enorme. Cara, como ele foi essencial.

Uma semana depois trocamos dois emails ou menos e nunca mais nos falamos, às vezes  me pergunto se ele era mesmo de verdade.

E o ano todo foi assim, encontro com pessoas que mudaram tudo e partiram.

Queria que ele soubesse, vou escrever um bilhete.


Food Is Still Hot by Karen O and the Kids on Grooveshark