domingo, 11 de dezembro de 2011

.de kababs à lagrimas.

Era verão, era Amsterdam, era noite, não tinha uma esquina daquela cidade que não inspirasse alegria, pessoas nas ruas, cantoria e tanta música, já havíamos parado em uns três bares diferentes, fiz todo mundo entrar em um só porque estava tocando Beatles e assim íamos de esquina em esquina, bar em bar, canal em canal, já nada mais sobríos como no inicio.
De repente aquela fome, decidimos parar em uma kebaberia pra variar, foi quando tive o ímpeto de começar um dialogo pessoal com o senhor que preparava nossos kebabs.
- O senhor é de onde?
- Palestina. - falou sem me olhar muito nos olhos, concentrado na feitura dos lanches árabes.
- Palestina, esta aqui há quanto tempo ?
- Muitos anos moça, muitos anos.
- Eu sou do Brasil, estou aqui há apenas 8 meses e sinto tanta saudade de tanta coisa da minha terra, você não sente da sua ?
- Sinto muita, muita mesma, mas o que fazer lá, não tenho nada a fazer lá.
- Por que senhor?
- Todos meus três filhos e minha esposa morreram na guerra, não tenho mais nada na Palestina, nada.

Eu senti como vontade de vomitar, uma forte dor no peito, não disse mais nada, precisava de ár, sai da kebaberia, me recostei na parede e de mãos no joelho as lágrimas começaram a brotar uma a uma e borrou toda a alegria de Amsterdam.

Obrigada Brasil, por ainda me dar tanto o que fazer.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

.sobre a rotina.

Leia ao som de Take me Home - Russian Red


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Devem ter sido por volta de trezentas embaladas de alumínio nos pães para as lancheiras das meninas, manteiga de amendoim pra Hanna, nutella pra Amber. Subir, escovar dentes, fazer os cabelos, entregar as lancheiras, separar umas brigas de quando em quando, dar tchau antes de irem pra escola com os pais, adorar o silêncio, subir, fazer as camas, abrir as janelas pra entrar um ár, fecha-las, pelas sextas trocar os lençóis, descer, ver email, facebook, essas coisas, cochilo, almoço, aquele pão descongelado com manteiga e flocos de chocolate, meu favorito, escrever, ler, ir busca-las, as vezes ir ao mercado, biblioteca. Na escola Amber sempre saia primeiro, me abraçava, jogava a mochila, ia rodar naquelas barras estranhas, pedia pra brincar com uma amiguinha, Hanna sempre pedia pra brincar e sempre demorava, e quantas vezes tinha que dizer não, porque tinha ballet, ou hockey, ou musical, ou qualquer outra atividade que limitava muito o tempo livre daquelas garotas, as vezes dava pena.
A logistica às vezes era complicada, deixar um em um lugar, buscar outra em outro, quiça até rolava almoço pra elas dentro da bicicleta, portanto chegar em casa era sempre um alivio, ainda mais em dias chuvosos ou no inverno quando tinhamos que pedalar no escuro, gostava muito da escola de ballet no entanto, ficava lá com a Kelsey geralmente, tomando chá comendo misto-quente.
Cinco horas começava a preparar o jantar, checava as lancheiras, Amber quase nunca bebia aquele leite de cabra fedido, as deixava assistir tv finalmente, as seis todos à mesa, depois subiam com os pais, eu ficava com a cozinha, e por vezes, quando eles me pediam para fazer babysit, eu ficava com a cozinha e com elas tambem e terminava o dia morta, ainda mais se tivesse sido dia livre da Amber na escola. Amber sempre queria desenhar mais um pouco, Hanna absorta em seus livros, era sempre uma negociação, ela dizia "mais duas paginas" eu "mais uma" ela dizia "mais três", eu "mais duas e ponto final", na verdade só fazia aquilo pra não perder minha autoridade, mas eu jamais iria recusar um pedido de uma criança que quer ler livros, geralmente descia pro meu quarto e só subia quando certeza, ela ja teria lido quase o livro todo, nunca contem aos seus pais dela por favor. rs
Em alguns dias a rotina me corroía, eu não lembro mais desse sentimento, mas sei que ele existiu, nenhum dia era igual ao outro, mas às vezes me sentia presa em uma casa de brinquedo, em um bairro da fantasia, tendo que fazer coisas mecanicalmente todos os dias, não ter que ir a lugar algum, não precisar ser ninguém dentro de um contexto mais coletivamente amplo, não fazer parte de grupos sociais, ser apenas uma desgarrada de sua pátria vivendo na casa alheia com data marcada de fim, às vezes me pegava no quarto das meninas deitada no chão olhando pro teto, ou de beira com o canal, olhando pro céu, que na Holanda parecia tão mais longe de mim, ao mesmo tempo que me sentia tão alí, não me sentia tambem, acho que deve ser um sentimento parecido se alguém fica sabendo a data que irá morrer, eu não iria morrer mesmo, mas iria partir daquela vida dentro de tantos meses, dias, horas e minutos, e cada dia era um dia a menos, e a rotina não mudaria por minha causa, e era a mesma antes da minha chegada, e teria que continuar depois que eu partisse, muitas haviam feito o mesmo antes, e outras fariam depois, não adiantava então lutar contra a rotina, porque ela era muito mais real e tangível que eu mesma, aprendi então em pouco tempo a saborea-la, curti-la e ser amiga dela, me despedia dela aos fins de semana e nos feriados prolongados, voltava meio perdida, mas sentava com ela de novo, tranquilamente no chão do quarto das pequenas, às vezes chorava ao seu lado, sorria, ria e tinha medo do seu fim, pra mim.
Eu parti, a rotina ficou e me partiu em duas.

A rotina da despedida

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

.ensaios sobre neve.

Leia ao som de Snow - Kokim Gumi

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O fim do verão na Holanda foi tão triste, todos os brinquedos de jardim das meninas foram recolhidos e guardados no porão, as pernas de pau, a piscina de plastico, as raquetes, as pistolas d'agua que eu tanto amava e qualquer outra coisa que havíamos usado todo o verão para nos divertir no grande jardim da casa na Spitfire 5.
As folhas das árvores se desprenderam todas, o canal que passava aos fundos da casa começou a congelar dia-a-dia, o sistema de aquecimento automático ligou finalmente, o chão se aquecia de forma uniforme, as roupas de verão das meninas foram pro sotão, a noite passou a nos visitar tão mais cedo, 5 da tarde já estava tudo escuro, todas as lampadas de nossas bikes foram revisadas e trocadas na bicicletária. Foi enfim todo um processo para irmos de uma estação a outra, os holandeses já estavam habituados e eu observava tudo aquilo como um grande espetáculo com sabor de uma vez só.
Havia dado no jornal que seria o inverno mais frio dos últimos mil anos, achei graça, não me abalei muito, na verdade esperava ansiosa pela neve, já a conhecia, mas queria muito ve-la novamente, já fazia tempo desde a ultima vez.
Um dia cozinhava contente enquanto as meninas assistiam tv na sala, olhei pela janela e vi o canal quase todo congelado, voltei aos meus legumes e quando olhei pela janela de novo, tudo estava branco como um pão doce de padaria, foi incrível como a danada chegou sorrateira, fui correndo pela casa para contar para as meninas a novidade, e nos três colamos nossas caras contra a janela para observar a neve rala e brilhante que caia leve sobre todas as coisas, foi tão bonita nossa alegria partilhada.
Nevou bastante nos dias seguintes, às vezes chovia e neve derretia toda, só ficava as placas de gelos escorregadias pelas ruas e sobre a cama elástica, depois nevava tudo de novo, diziam que eu tinha sorte, porque não era todos anos que havia tanta neve, às vezes toda aquela neve foi um problema enorme, tal como quando os trams paravam de passar e eu e as meninas tínhamos que ir pro centro de sport de inverno que era longe pra caramba, os holandeses ficavam enlouquecidos sem transporte público, eu via a hora que começariam a se estapear nas ruas do centro de Den Haag, por não saberem como lidar com o caos, mas mesmo assim,  neve é uma coisa que deixa qualquer adulto virar criança de novo e animava a gente com todo aquele frio, até meus hostparents, que eram as pessoas mais adultas que conheci na vida, se deixavam levar pela magia da neve.
Uma noite saindo de um restaurante depois de um jantar em família apos uma tarde no circo de Natal, eu os pais e as meninas iniciamos uma super guerra de bolas de neve, corríamos pelo estacionamento, nos escondíamos atras dos carros e riamos sem parar, nunca tinha brincado com todos eles juntos, os avós e os tios ficaram nos observando na escadaria do restaurante, nunca me senti tão parte daquela família como naquela noite. Entramos no carro tempos depois cheias de neve até as orelhas, caras vermelhas, rindo, sem necessidade de muita comunicação verbal, de rostos gelados e corações quentes.

Queria ter trazido um pouco de neve pra casa, mas me disseram que derreteria.

e da janela eu podia ver

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

.Segundo Sol.

Leia ao som de Sigur Rós - Inní Mér Syngur Vitleysingur

A família partiu pela manhã, seguiram pra Áustria, só nos veríamos em duas semanas, eu e as meninas nos abraçamos tanto e tantas vezes ao se despedir que até fiquei cansada, elas ficaram acenando para mim até o carro deles virar a rua e sumir do meu campo de visão.
Eu ainda não acreditava que aquela noite embarcaria para a tão sonhada Islândia, meu voo Icelandair sairia do aeroporto internacional de Schiphol às 23h45.
Deixei a casa na rua Spitfire número 5 por volta das 18h, chequei todas as trancas, janelas, esvaziei a fruteira, tirei equipamentos eletronicos das tomadas, terminei de fazer a mala, fiz lanchinhos pra viagem, organizei o quarto, acionei o alarme, dei uma última olhadela pra grande casa e parti. Era um dia quente de verão, daqueles que o sol só se despedia as 23h e que me dão um bocado de saudades.
Peguei o trem errado, um que não fazia parada no aeroporto, fui parar em Amsterdam, conheci um africano refugiado do Congo que me contou toda a triste história da guerra civil em seu pais, ele gostou de mim, fez questão de me levar até o trem certo e se despediu calorosamente como se fosse um amigo próximo.
Encontrei-me com uma amiga au pair do sul do Brasil no aeroporto, a doce Beth, assistimos o primeiro tempo do jogo final da copa do mundo, Holanda contra Espanha, em um bar e depois em um grande telão instalado em frente ao Schiphol, com tantos outros holandeses esperançosos.
Antes de começar o segundo tempo, ainda em zero a zero, me despedi da Beth, fiz check in e fui pra sala de espera, assisti os momentos finais do jogo da janela do avião antes do mesmo decolar, vinte minutos depois o piloto nos deu a noticia que a Espanha havia ganhado, para a tristeza das tantas famílias holandesas a bordo, confesso também fiquei meio triste, ao pensar nas meninas.
Decolamos, já escurecia na Holanda, dez minutos depois já estávamos sobre o mar, era tão bonito, a escuridão foi devorando o oceano e quando já estavamos em completa escuridão, o sol voltou a despontar lá no horizonte e pouco depois nasceu pela segunda vez naquele dia para nós, meus olhos ficaram úmidos em lágrimas de alegria, lembrei-me do pequeno príncipe, que podia ver quantos pores-do-sol quisesse por dia em seu pequeno planeta, e que gostava de fazê-lo quando estava triste, não sei como cheguei a ter a chance de ter dois pores- do- sol no mesmo dia, mas a sensação sem dúvida não tinha nada a ver com qualquer tristeza possível.
Aterrissar na Islândia foi como aterrissar na Lua, nunca fui a lua, mas estou quase certa que o sentimento é parecido, aquele chão de lava de vulcão solidificada, todo aquela imensidão inabitada , questionei até se existia vida naquele "planeta". Eu não via a hora de poder pisar em tudo aquilo e explorar o que pudesse, me invadir de tanta luz, solitude e espaço. E foi o que fiz.
Tudo aquilo foi tão grandioso que hoje verbalizar é até meio difícil, se nostalgia me desse vontade de ver pores-do-sol, teria que ir e voltar lá muitas vezes no mesmo dia hoje.
E, foi verdade, não escureceu nenhum dia na Islândia.

Meu segundo por-do-sol.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

.trem para Tessalônica.


Leia ao som de Milice - Foltin
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Eu não tinha planos de chegar em Tessalônica, mas o trem que me levaria pra tão sonhada Skopje tinha como destino final essa cidade grega. Eu tinha muito medo de não conseguir entrar em território macedônio por não ter um visto, simplesmente por não ter encontrado na Holanda ninguém que pudesse me dizer se eu precisava de um ou não, tinha um visto sérvio de dupla entrada e isso era tudo. Acreditava que de trem seria mais fácil atravessar a fronteira, e o destino final me acalmava "Qualquer coisa eu falo que estou indo pra Grécia, eu tenho permanência na união européia certo, e Grécia, ainda bem, faz parte da união". Minha companheira de viagem Sylvie, tinha seu passaporte francês, benditos franceses, entram em basicamente todos os lugares do mundo.Ainda não sabíamos o que faríamos se eu tivesse que voltar quando chegássemos na fronteira, eu dizia que ela deveria seguir viagem, eu voltaria sozinha e viajaria pela Servia, ela por vezes dizia que não me deixaria voltar sozinha, e outras vezes que talvez fosse, pois Dominique e Estelle já nos esperavam do outro lado, eu não queria pensar muito nisso, era demasiado dolorido e assustador.
O trem partiu ás 22h da estação de trem de Belgrado, era um trem dos anos 50 acredito, de estofado de couro marrom, cortinas amarelas e chão bege desbotado, bastante vazio, afinal o ônibus ia muito mais rápido, mas eu ainda acreditava que de trem tinha mais chances de atravessar a fronteira, e lá estávamos nos, nos vagões que seguiam para Tessalônica com parada em Skopje, diziam ainda que outros vagões chegariam em lugares ainda mais longínquos como a Turquia.
Eu não preguei os olhos durante toda a noite, querida Sylvie dormia esparramada de boca aberta como de costume, o que sempre me fazia rir, foi mais engraçado ainda quando um oficial da fronteira passou para pedir passaportes e viu ela nesse estado. Durante todo percurso eu escrevi e sonhei com com as ruas macedônias, pensava no brilho do olhar daquele que me inspirou a viagem quando falava de lá e nas pessoas que conheceria, eu sempre tive os pressentimentos mais doces em relação aquela jornada e só o pensar em não conseguir entrar me impedia de dormir por completo.
Foi então que as 5h da manhã alcançamos a fronteira, o trem parou, se desligou, e a espera de alguns minutos pelos oficiais me pareceu anos, podia ver a bandeira macedonia estiada reluzente quase em cima de nossas cabeças, e ouvir os passos lentos daqueles que decidiriam meu destino apartir dalí, acho que nesse momento já era possível para qualquer um ouvir as batidas do meu bombeador de sangue, vulgo coração.
O oficial não falava inglês praticamente e nossa comunicação foi marraconica, ele parecia meio retardado, anunciou para os outros outros poucos passageiros a minha nacionalidade e começou a falar "Ronaldo, futebol" insistidamente, várias vezes a rir como um boçal com um tom que soava tão ironico, eu me sentia em uma inspeção nazista durante a segunda guerra ou coisa que o valha, mas ao fim, ele parecia muito feliz com a minha visita, me deu um carimbo e desejou boa viagem, e o alivio, a alegria, nem dá pra verbalizar, Sylvie também sorria muito e logo dormiu de novo, eu não dormi nada, mas daquela vez era a euforia que não me permitia, saboreava cada metro de terra daquele país misterioso, era lindo, e o por do sol me veio dar bom dia acanhado passado alguns minutos.
Depois dos três dias mais genialmente longos de minha vida em Skopje, quando finalmente cheguei na Holanda, notei que no regresso esqueceram de carimbar minha saída do pais.
Acho que, verdadeiramente, nunca deixei a Macedônia.

Aj dali znaesh,
Pametish Milice, Koga si bevme malechki, Koga si bevme malechki Milice Koga se dvajsata ljubevme!

.Sakam te.
Assim que o trem começou a deixar a fronteira.
E o nascer do sol de minutos depois.









quarta-feira, 24 de agosto de 2011

.ensaio sobre viagens de bicicleta.

Leia ao som de Bicycle Race - Queen

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Pequenas, enormes, coloridas, floridas, fluorescentes, duplas, mono, normais, inusitadas, bizarras...
Na Holanda não existe tipo de bicicleta que não existe, entende? As famosas fiets como eles dizem. E apesar de toda planície nem sempre pedalar era a coisa mais fácil do mundo, em dias de ventania, que eram bem comuns por lá, eu sofria muito e minhas perninhas mais ainda, sem contar as grandes chances de ser derrubado pelo vento o que era um bocado assustador.
Em um dia ensolarado de domingo, porem, resolvi fazer uma bike trip, com a Alena, a menina tcheca que morava na rua de baixo. Nem foi assim uma viagem a lá Jules Vernes, fui apenas até Leiden, uma cidade 20 kilometros distante da minha, mas foi minha primeira e única e foi especial pra burro.
Levamos mais ou menos uma hora e meia pra chegarmos, paravámos para tirar fotos, apreciar moinhos de vento e canais, comer cenouras, tomar sorvetes nas sorveterias de pequenos vilarejos e conversar sobre nossas vidas na Holanda, sobre minhas peripécias no Brasil, sobre os verões em Praga de Alena. Era primavera, não fazia calor, mas o sol já começara a fazer um papel mais importante que apenas iluminar os dias de forma passiva, fomos por uma estradinha cheia de casinhas tipicas, fazendas, cavalos e ovelhas, e eu como sempre, quando no silêncio, me pegava imaginando a vida dentro de cada um daqueles universos, a sorrir.
Ao chegar em Leiden, nos juntamos aos outros trezentos e cinquenta mil ciclistas que circulavam pelas ciclovias da cidade, tinha um casal recém-casado saindo de uma igreja e convidados soltaram mais de cem bexigas coloridas ao ár quando eles desceram as escadarias, paramos em um café, visitamos um museu de arte egípcia e uma feira de rua, e é assim, varias fotos de memórias daquele dia solto no tempo, tão vivo na lembrança.
O regresso foi mais difícil, a temperatura tinha caído um pouco e o vento não estava ao nosso favor, em um momento quase já não sentia mais as pernas, mas era daquelas coisas impossíveis de se arrepender mesmo que fosse por um segundo.
Dormi cedo aquele dia, sorrindo como uma criança carregando um pacote de marshmallows.
Eu havia aprendido a andar de bicicleta faziam cinco meses então.


Obrigada Alena.

No meio do percurso.


terça-feira, 16 de agosto de 2011

.Holandês, a saga.

Eu comecei a estudar holandês mais ou menos um mês após ter chegado na terra dos moinhos, eram dois trams longe de casa ou 40 gorgeous minutos pedalando, na primeira vez fui de tram, desci no ponto errado, fiquei bem perdida e cheguei meia hora atrasada. EPIC FAIL. Apartir daí comecei a sempre ir de bicicleta e apesar da distancia esta aí uma coisa que me dá muita saudade, a cada semana escurecia mais tarde, ia chegando o verão, e no final ao chegar em casa, lá pelas 11h da noite ainda vi o corte laranja do sol lá no horizonte. Eu pedalava ouvindo musica, cantando e com uma sensação de liberdade tão tamanha, era muito bonito. O único problema era que com a chegada do verão muitas ciclovias ficavam enfestadas de mosquitos e eu tinha que pedalar com a boca bem fechada senão corria o risco de comer muitos deles, lembro de uma vez que um me atacou olho e ficou coçando pra burro.
 A família apoiava muito meus estudos, nunca chegavam atrasados do trabalho nesse dia, eu fazia o jantar, comia mais cedo, e partia, Suzanne estava sempre lá pontualmente as 18h me desejando boa aula a sorrir.
A escola de idiomas, a Volksuniversiteit, funcionava dentro de uma escola tradicional antiguissima que tinha um cheiro tão peculiar onde eu sempre me perdia pelos corredores.
A professora falou em ingles somente na primeira aula e depois nunca mais, era extremamente engraçado e assustador, mas com o tempo estranhamente eu comecei a entender, nunca havia imaginado ser possível. Deixei também de ser aquela analfabeta social, comecei finalmente a entender as placas, foi emocionante essa fase da minha vida lá.
 Na sala tinha todo tipo de gente, tinha o russo Dimitri (of course) que levava um dicionario gigantesco mesmo, o pedreiro bulgaro que sempre respondia coisas absurdas, o venezuelano misterioso que nunca explicava exatamente o que estava fazendo na Holanda (eu tinha certeza que ele era um assassino procurado em seu pais), a unica outra au pair que era das Filipinas que não entendia nada x nada x nada, não falava nem inglês e sempre aparecia nas aulas com a cara arranhada pela criança que cuidava, o italiano que entendia tão pouco quanto a filipina e sempre fazia uma cara de terror quando a professora fazia perguntas pra ele e o jardineiro que era sem duvida o mais inteligente da sala, entre outros personagens ilustres. Todas essas pessoas faziam minha quarta -feira anoite muito mais divertida, papo sério.
Para o ultimo dia de aula a professora pediu que levássemos algo do nosso país, eu fiz beijinhos e brigadeiros toda animada, só que chegando lá tínhamos que explicar em holandês, droga, mas acho que consegui, ao menos todos gostaram dos doces. Jenny WIN, e nesse dia quando cheguei em casa com meu diploma, eu e os país celebramos com champagne e eles me deram uma grana extra. Jenny WIN ao cubo.
Não consegui aprender Holandês de fato, tem palavras impronunciáveis e quando estava na Holanda achava o idioma extremamente horroroso portanto tinha uma certa bronca, mas estudei pra valer, em Outubro, porem, me estorvei e me desliguei do idioma, hoje em dia, no entanto, me esforço pra não esquecer uma só única palavra, pois sinto que é o meu mais forte souvenir daquelas terras, daqueles dias, é uma parte das minhas meninas, do sorriso de Suzanne, nas noites ensolaradas em mim, uma parte muito viva que posso falar, mesmo que sozinha, todos os dias e sorrir pelas ruas brasileiras.
Saudades...define. Ternura...é o que restou. 

Último dia de aula com as pessoas mais inusitadas ever.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

.tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.

Leia ouvindo - Sigur Ros - Hljomalin
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Lembro que no inicio de minha vida holandesa, quando invadi a vida daquelas duas meninas louras e elas a minha, e tivemos que conviver debaixo do mesmo teto da noite pro dia, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo, eu então me perguntava quando iríamos nos amar, quando eu as cativaria e quando elas cativariam a mim, eu sabia que até um certo ponto eu poderia partir sem causar danos, nem do meu lado nem no delas, mas foi com o desenrolar dos dias que notei que o amor entre nós ia crescendo tão bonito quanto flor selvagem no campo e tão assustador quanto sede em dias de seca.
Lembro do primeiro convite pra ir brincar junto, do primeiro abraço acanhado até os selinhos fraternais, e as lambidas de saudades em minhas bochechas quando eu voltava das viagens de feriado.
É uma lembrança viva o dia que tive certeza de ter cativado a menina mais nova, foi quando esta caiu violentamente da bicicleta e foi arremessada contra o asfalto, chorava muito quando a levantei e ao invés de apenas chorar e ficar parada estática como fazia antes, resolveu me abraçar com muita, muita força a busca de conforto, eu cerrei os olhos, como se tentasse fazer com que tudo aquilo que meu coração sentia fizesse sua dor passar mesmo. A mais velha começou a dormir quando tinha medo somente quando eu cantava pra ela ou quando ficávamos de mãos dadas por um bom tempo.
No final a gente sempre ria de tudo, dos dias de tombos e de medo.
E no inicio a ideia era viajar pela Europa de forma barata e pra isso ter que cuidar de criança, e ao fim eu cuidei de criança, eu as amei incondicionalmente, e então viajei pela Europa.
Aí como eu tinha vontade de cuspir naquele menino que atropelou a Amber de bicicleta de propósito, ou puxar com força os cabelos daquela menina que destrava da Hanna sempre.
Lembrei do meu pai todas as vezes.


Aniversário Hanna 

domingo, 29 de maio de 2011

.quartas de final, amor em tempos de copa.

Leia ao som do Hino do Brasil por Olodum
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Eu nunca fui fã de futebol, não sei, apenas não rolou, na infância porem amava assistir a copa do mundo, vibrar com toda vizinhança, toda aquela coisa mãe, pai, avô, avó, tia, papagaio e cachorro juntos vibrando na frente de uma televisão. Na adolescência rebelde (sem causa) fiz questão de odiar tudo isso, e depois apenas fiquei assim, normal, era mais uma copa, eram mais muitos folgos, era o Brasil como eu já o conhecia tão bem.
Foi aí que percebi que naquele meu ano holandês era ano de copa, e lá se eu não soubesse continuaria sem saber praticamente, afinal onde estavam as ruas, calçadas, muros, hidrantes, postes pintados? Onde estavam os camelos vendendo até a mãe pintada de verde e amarelo, cornetas (que viraram vuvuzelas) a cada metro quadrado ? Onde estava tudo isso? oh no.
Fiz questão de comprar pra Amber, que amava decorar todas as coisas do universo, bandeirinhas laranjas pra enfeitar a frente da casa e eu e a Hanna preenchíamos a tabela de jogos todos os dias.
Cogitavam a possibilidade da Holanda jogar contra o Brasil, mas mesmo os holandeses achavam muito difícil, afinal já eram décadas que o pais deles não passava nem da primeira fase. Eu assistia aos jogos das duas seleções, os holandeses com as crianças em casa comendo chips de paprika (meu favorito) e aos brasileiros com a comunidade brazuca em um bar no centro de Den Haag e sei lá, era muito emocionante tudo aquilo. Uma vez assisti em casa com duas amigas brasileiras, e minha hostmother disse que nunca tinha visto pessoas tão felizes com um jogo de futebol.
Estranhamente a copa tomou um curso inesperado e a Holanda iria mesmo jogar contra o Brasil, a família saiu para assistir ao jogo deles em um bar na praia e me deixaram chamar quem quisesse para assistir em casa, daquela vez não poderíamos sair nas ruas, tudo estaria laranja. Os holandas tinham pouca esperança de ganhar, senão nenhuma, e eu certa que eles não tinham que ter mesmo. Aline, uma grande amiga paulista veio me fazer companhia e enquanto nos entupíamos de cola-cola e mais chips de paprika vimos nosso pais perder para aquele que nos acolhia, lembro que nem consegui terminar de assistir a partida, fui pro quintal e deitei na grama, era um dia quente de verão holandês, depois enfiei meus pés nas águas do canal que corria no fundo da casa, nem conseguia identificar que a Holanda fazia mais gols ou não, a comemoração holandesa era tão discreta e sem vida e aquilo me irritava profundamente também. Aline veio finalmente me encontrar dando a noticia da derrota e eu inesperadamente chorei e nunca entendi ao certo o porque, ela estava com muita raiva, acho que contia lágrimas também, e eu a limpar as minhas, me deixavam a vista tão embassada, nunca tinha chorado por causa de futebol antes e nem conseguia me justificar, mas me permiti chorar, era preciso. Não era só amor pela patria em tempos de copa, era aquele amor que a gente sentia tão forte por estar tão longe refletido alí, naquela ação coletiva.
Quando as meninas chegaram em casa, estavam tão felizes com a vitoria inesperada holandesa mas fizeram de tudo para conte-la por minha causa e me abraçaram com grande ternura. "Jenny, proxima vez o Brasil ganha, veja a gente, fazia uns 40 anos que não chegavamos tão longe"
E foi por elas e com elas que eu fui assistir ao jogo holandês contra o Uruguai na praia algum tempo depois e durante toda a partida forcei uma alegria com os gols holandeses e ainda mais com a  vitoria, torcia secretamente para o Uruguai (háhá). Só que aí, quando vi as meninas cantando e dançando na areia, no fim daquele dia de verão com o céu em tons azuis e purpura, esqueci de tudo aquilo, eu tinha tido a mesma alegria na minha infância e naquele momento era tudo que queria dar pra elas, aquela alegria pueril de jogos de copa.


A Holanda perdeu na noite que tínhamos nos separado para as viagens de verão, eu estava em um avião em direção a Islândia e elas na Áustria com os pais. Todo aquele mês que havíamos acompanhado os jogos, decorado a casa, comprado figurinhas e álbuns acabava ali e nunca mais tocamos no assunto.


Porem, aquelas lágrimas, aquela amiga partilhando a mesma alegria, a mesma dor e o céu em tons de azul e purpura com aquele canto de crianças felizes eu nunca esqueci, nunca mesmo.


Eu e Aline, no famoso Fiddlers para o jogo do Brasil x Costa do Marfim (acho rs)

quarta-feira, 11 de maio de 2011

.mistério do planeta.





leia ouvindo Mistério do Planeta - Novos Baianos


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Sylvie disse:
- Você não quer subir hoje anoite pras montanhas menina? Já está todo mundo lá !!
- Ah okay, estou um pouco cansada da viagem mas tudo bem, porque não?
Estávamos na casa de seus pais, no pequeno vilarejo de Kayserberg, Alsace, França. Grandes amigos dela nos esperavam em uma cabana no topo de uma montanha entre a França e a Suíça para a celebração do ano novo, era dia 30, eu tinha acabado de chegar de quatro dias em Paris, e ela estava inquieta, não queria mais esperar, nem o amanhecer nem nada, e eu maluca que sou, topei sem questionar muito.
Fazia uns -5 lá fora e começamos a subir de carro as montanhas, cada quilometro percorrido os graus iam baixando, chegou um momento que de carro não era mais possível, então descemos e descemos todas as mil coisas que Sylvie queria carregar lá pra cima junto com a gente, bebidas, comida de ano novo e tudo mais, e eu ainda pensando que a cabana era só alguns metros dali.
NOT. A cabana era a a sei lá uns 700 metros dali em ascendência constante, tínhamos quilos de coisa pra subir e um frio já beirando os -15, uma lanterna que funcionava a base de energia da força humana, um trenó onde colocamos as coisas e aparatos de fazer esqui. Naquele momento eu queria matar a Sylvie, mas jamais o faria porque a amo muito então a solução foi rir e contemplar o céu estrelado. Como nossa garrafa d'agua deslizou do trenó e se perdeu, quando batia a sede o jeito era apanhar neve e deixar ela derreter na boca.
Depois de uns 10 minutos ou mais de caminhada, quando já estávamos cogitando a possibilidade de enterrarmos as comidas e vinhos na neve para buscar ao amanhecer, dois meninos do grupo vieram ao nosso encontro para ajudar e lá fomos nos, foram mais uns 20 minutos de subida, e lá em cima a neve estava tão densa e alta que metade da perna as vezes se afundava, e teve até um penhasco assustador, até hoje não entendi ao certo do porque a ideia de fazer a subida tão tarde, coisas de Sylvie que no fim são sempre divertidas.
Nunca me arrependi de ter subido as montanhas, foram tres dias em um lugar que ao amanhecer parecia que estávamos acima do céu, as nuvens lá embaixo, e o sol brilhava quase sempre, nevou na descida no entanto, mas foi muito bonito. Lá em cima gente de dois lados totalmente opostos da França, alsacianos e bretões e uma brasileira, que apartir de algumas horas tinham virado companheiros, dividíamos as refeições e tudo. Gente muito única, como um moço que trabalhava ensinando presidiários a cultivarem seus próprios legumes e outras singularidades assim.
Em uma manhã caminhei horas ouvindo Novos Baianos, meu olhos já mal conseguiam absorver tanta neve e tanta beleza, tanta paz, os raios de sol entre as arvores, e a musica me dava toda essa sensação paradoxal e estar alí, lembrando das ruas da minha cidade brasileira. Era terno.


Sylvie estava muito preocupada quando voltei, acreditando que eu tinha caido de um penhasco e morrido, na mesma tarde uma amiga dela que chegou me perguntou "Ah você é a irmãzinha da Sylvie certo?"


E mesmo que o jantar de ano novo tenha sido rã ao molho e o chuveiro da cabana ficar em uma área que não tinha NENHUM tipo de aquecimento, eu estava feliz, eu estava feliz demais. 



Saudades dessas famílias espalhadas pelo mundo.





Vou mostrando como sou e vou sendo como posso, jogando meu corpo no mundo, andando por todos os cantos, e pela lei natural dos encontros eu deixo e recebo um tanto...


Vista da Cabana

Jantar de Ano Novo


sábado, 30 de abril de 2011

.um segundo para o fim do mundo.





Leia ao som de Heads Up - Karen O and the Kids


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- Posso deixar a Amber em casa sozinha enquanto busco a Hanna no ballet hoje?
- Até daria Jenny, mas estaremos do outro lado do país, se acontecer algo com você, não teremos como ajudar vocês- respondeu-me ela com preocupação, tinha sempre muito receio em dizer não aos meus pedidos.
- Ah mas não vai acontecer nada - respondi com descrença de ser possível acontecer algo, afinal já eram onze meses e nenhum acidente, veja bem vocês.
De toda forma acharam melhor que eu não deixasse ninguém em casa, primeiro eu precisava buscar Amber na aula de desenho e depois Hanna no ballet, e tudo isso naquela bicicleta esperta, com caixote na frente, a famosa bakfiet.
E lá fui eu, era um dia ensolarado de outono, um pouco frio, coloquei uma musica marota e fui cantando, feliz, despreocupada, já tão habituada ao caminho, minhas pernas me levavam, a mente podia ir a qualquer canto, assim eu acreditava, até então.
Fiz meu caminho favorito, pela rua de casas ponteadas (foto) e a beleza do dia me deu vontade de cantar e cantar, chegou então a hora de virar, porem virei com muita velocidade e só com uma mão na direção, a bike pendeu pra um lado e eu perdi o controle da mesma, fui com certa velocidade em direção a um carro que vinha na direção contraria, afinal a bike foi, com vontade própria pra mão errada, e eu fui gritando ahhh, e aconteceu todas aquelas coisas né, que acontecem quando você visualiza sua morte, a vida passa toda diante dos olhos e tudo mais em questões de um segundo, e eu não aceitei a realidade e joguei a bicicleta pra calçada, que bateu com força na guia, quase subiu, mas não deu, ao invés, foi direcionada para a mão certa, o carro já tinha parado no meio da avenida, ufaaaa, foi um alívio, recobrei os sentidos e agradeci cem mil e quinhentas vezes pela vida e por todos os ossos intactos naquela hora.
Segundos depois não consigo mais pedalar, pneu da frente furado. FAIL. Tive que arrastar a bicicleta até o centro cultural onde Amber tinha aulas de desenho, fechei ela na corrente (a bike) e fui atras de conseguir alguem que pudesse me ajudar. Encontrei uma mãe bondosa, mas que não falava nenhum inglês "vamos lá holandês, chegou tua hora" e foi assim, que consegui que ela levasse a Amber até a escola de ballet, o carro já estava cheio, e fui andando todo caminho, trinta gorgeous minutos, mas nem liguei, sinceramente, fazia o fim de tarde mais bonito de toda minha estadia, tons em cortes em laranja e rosa no céu azulado, e caminhando pude visualizar tudo isso com mais calma, faltava só um mes para o fim, e fui me despedindo assim, com calma do caminho tão habitual, mas tão efêmero.
Na escola de ballet, eu, Amber e Hanna juntas, conseguimos uma nova carona, dessa vez pra casa, com um outro pai muito bondoso. Em casa jantamos juntas e rimos e papeamos com aquela cumplicidade verdadeira que eu só conseguia ter com elas, as coloquei pra dormir, e toda aquela energia, naquele ponto já não me era nada ruim, só divertido, só antecipadamente nostalgico.
Nunca contei pra ninguem do quase acidente.


Afinal nunca havia acontecido nada de verdadeiramente ruim.

domingo, 24 de abril de 2011

.zdravo!.


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Era uma rua tão estreita, no lado turco da cidade, nada longa e até hoje ainda me pego pensando em quantos universos ela era separada.
O primeiro barracão que Dominique me levara, ainda herança do terremoto de 63, abrigava a sede da escola de danças folclóricas macedônias. 
Fomos muito bem recebidos, Dominique era muito influente nos meio culturais e socio-politicos de Skopje, e logo fomos afetuosamente convidados para assistir ao ensaio que a pouco começara.
Uma banda marota tocava as canções todas ao vivo, canções que cerca de quarenta homens e quarenta mulheres cantavam com uma força que fazia o coração bater mais forte, e com passos de danças ensaiados que me prenderam o olhar, não conseguia desviar, principalmente quando os homens pulavam muito alto e rodopiavam e pulavam novamente e cantavam com uma precisão fascinante.
Cantavam musicas em principal em idioma macedonio, por vezes albanês e até mesmo em linguagem roma. O mestre, um senhor de cabelo ralo, era rigido ao mesmo tempo que era terno e paternal, sorria em nossa direção com freqüência, um sorriso extremamente acolhedor e modesto.
Logo depois do ensaio macedonio, saimos e paramos no barracão ao lado, era o ensaio de dança das crianças turcas, não tinham uma banda, tinham um aspecto mais simples e fizeram questão de mostrar a estrangeira que vinha de tão longe sua dança mais bonita, toda cantada em árabe com dança sutil e leveza de mãos, uma criança linda não me desviava o olhar curioso, e não pode entender nada do que eu disse naquela noite de lua tão cheia e sincera na capital da Macedônia. Deixei a rua, onde tantos conflitos étnicos e morais coexistiam, aparentemente em paz, atraves das canções.
Era hora de voltar pra casa, eu sempre cumprimentava os taxistas em seu idioma, e isso me reservava uma alegria muito singela e particular.
Em casa, eu e Dominique tomamos sopa de abóbora e algumas boas doses de rakia, a bebida alcoólica mais popular dos balcãs, conversamos sobre a vida, sobre paixões, amores, e ela tinha tantas historias incríveis, que eu deveria ter gravado tudo para fazer um filme um dia.
Nunca vi 65 anos mais cheios de plena juventude como os anos de Dominique, dentro de sua sala ornada pelas aquarelas que fazia diariamente seu pai, nunca vi tanta intensidade dentro de olhos cansados por um corpo frágil, nas entrelinhas das saudades, nas dores das despedidas, de tantos homens, tantas mulheres e tantas linhas escritas pro infinito.
Daquele papo nascia uma cumplicidade que eu mesma nunca ousei tentar verbalizar até agora, em nossos olhos refletiam tantas inquietações comuns, tantos abraços partidos e sonhos, naquela noite, soprando pelos ventos balcânicos.


Foram apenas três dias, mas a melancolia do adeus foi assustadoramente verdadeira.




Skopje, lado turco, outono 2010

segunda-feira, 11 de abril de 2011

.I wanna make it good.

(Leia ao som de Kinderen voor Kinderen - Elsje)


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Era uma noite de sabado, e eu estava com elas enquanto os pais se divertiam em alguma festa de gala pelo país. 
Não me incomodava muito, as crianças holandesas dormiam demasiadamente cedo e eu ficava assistindo filme tranqüila o resto da noite e economizando uma grana pra próxima viagem, só tinha que ativar aquele alarme idiota, checar as trezentas janelas e depois tudo bem, sem contar as noites que Kelsey vinha me fazer companhia nas sessões de cinema em casa, com chá quentinho e croissants do Albert Hein, não havia lugar melhor no mundo, especialmente no inverno.
O momento mais critico no entanto era coloca-las pra dormir, a energia não cessava, às vezes tinha vontade de golpea-las no estômago pra ver se ajudava, mas se nem tapinha de leve podia dar, quem dera um golpe no estômago, a regra sempre havia sido muito clara "faça de tudo para controla-las mas NUNCA use violência física" e aquilo martelava na minha cabeça, toda vez que sentia estar a ponto de estrangula-las ou coisa assim.
Mas segui a regra da boa vizinhança dos monstros do playcenter "não toque neles e eles não tocaram em você" e enquanto elas, em seus dias de monstras, não me tocassem eu sabia que teria forças pra não toca-las.
Mas naquela noite algo saiu errado.
- Quem colocar o pijama primeiro eu escovo o dente primeiro !!!
Elas tinham uma eterna briga dos diachos para ver quem escovaria os dentes primeiro, na verdade era uma merda  ainda termos que escovar os dentes delas, sempre quis mandar pros infernos o dentista imbecil que mandava tais instruções.
Hanna, a mais velha, foi veloz e se trocou primeiro, Amber não aceitou ter perdido, roubou-me o tubo de pasta de dente e saiu correndo gritando pelo corredor, eu fui atras gritando mais ainda
- Me dá aqui esse negocio !
- Não dou, eu vou ser primeiro !!
- Amber não vou falar de novo, me dá logo isso, Hanna já esta de pijama, você esta correndo como louca só de calça jeans !!!
- Nãããããõ - e avançada em diração ao quarto vazio dos pais.
Em um ato de desespero ranquei o tubo de pasta de sua mão, quando dominei o objeto ela me virou uma tapão no braço com toda sua força de menina holandesa e eu no reflexo virei outro tão forte no mesmo lugar, ela começou um choro gritado e doido e saiu correndo pro seu quarto, eu continuei fazendo o que ia fazer, escovar o dente da outra, ouvindo seu choro forte por muitos minutos, de coração cortado, lembrei-me do meu pai, no fundo o tapa que dei doeu tanto em mim quanto nela, no fim acho que tinha era levado dois tapas.
- Jenny, eu quero fazer as pazes (I wanna make it good, em seu ingles tão seu) - veio ela até mim depois de chorar muito, me dando a mão para conversarmos, conversamos e choramos juntas no ombro uma da outra, me restavam somente quatro meses e o medo da separação bateu forte em nossa porta pela primeira então.


Contei aos pais o que havia acontecido, com um certo receio de levar uma bronca por ter então batido em uma delas, not really.


Amber, no entanto, ficou um mês sem poder usar as botas novas.

Amber Straathof por Elton Hipolito






domingo, 10 de abril de 2011

.um minuto de escuro.

(leia ouvindo Fleet Foxes - Blue Ridge Mountains)


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Após o jantar, faltava pouco para eu ter que partir, iria naquela noite visitar outro amigo do outro lado da cidade.
Ele queria revelar um dos seus rolos de filme fotográfico, ouvíamos Fleet Foxes, ou qualquer coisa muito bonita, chez lui, as musicas eram sempre bonitas.
Andava pra um lado e pro outro arrumando os utensílios que precisaria para iniciar o processo de revelação, teve dificuldade em saber qual era o rolo certo a revelar, andando pra lá e pra cá, já me avisava que por um tempo tudo teria que ficar muito escuro, eu permanecia sentada, revelando aqueles meu últimos momentos ao lado dele por um bom tempo.
Tudo estava pronto, os minutos de escuro logo viriam, já estava me preparando para ficar naquele sofa sozinha enquanto ele se esconderia no cômodo mais sem iluminação da casa; o banheiro. Foi quando ele disse:
- Vamos comigo?
Em um pulo tímido decidi acompanha-lo, o segui enquanto apagava todos as lampâdas e luminárias do pequeno apartamento.
Ao chegarmos no banheiro ele disse:
- Esta pronta ? Eu tenho 1 minuto pra conseguir fazer tudo que preciso e teremos que ficar debaixo desse cobertor, para ter certeza que nenhuma luz ira afetar o filme, pronta?
Eu olhava pra ele muito atenta, guardando cada frame com uma preocupação absurda dentro da memória:
- Parece que iremos viajar no tempo com esse seu jeito de falar.
- Vamos então? Fique aqui deste lado, contarei até três... um, dois, três. - elr geralmente comprava todas as minhas viagens de forma tão natural.
E foi um minuto de escuro, uma viagem no tempo imaginaria, só o som do filme sendo manipulado as cegas, onde muitas fotografias mentais daquela minha vida até alí me atacaram abruptamente.


Voltou-se a luz, e pouco depois eu tinha mesmo de partir, ele agora tinha que virar o filme à cada trinta segundos no balcão da cozinha.
- Você só terá 30 segundos para me dar um abraço de despedida. - disse ele com sorriso largo.
E eu fui rindo me despedir.


Foram um dos últimos abraços.


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Paris, winter '10


Paris, inverno 2010, uma festa em algum canto da cidade.











quinta-feira, 7 de abril de 2011

.para sempre luz do dia.



( leia ao som de Sigur Ros - Hoppipolla)


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Já se completava o meu terceiro dia acampando pelo sul da Islândia, com o casal búlgaro-islandês. Tínhamos deixado o acampamento aos arredores da Seljalandsfoss, uma das quedas d'agua mais famosas da ilha, onde eu havia encontrado meu lugar favorito no mundo.
Fomos parar nessa cidadezinha marota, onde estava rolando um festival tão maroto quanto, toda cidade decorada, e pessoas jogando futebol usando coisas engraçadas, tipo um cara de fralda e coisas assim.
Dentro do nosso costume dos últimos três dias paramos na piscina da cidade pra tomarmos banho, todas aquelas europeias eslavas nuas no chuveiro e eu lá cheia de vergonha, tive que vence-la.
Depois uma caminhada pelo vilarejo, desde as casas exoticamente decoradas até a praia, já eram umas 10hrs da noite e o sol ainda brilhava intenso no horizonte.
Tinha uma festa por lá, em uma tenda, começamos a tomar Viking, a cerveja popular, dançamos loucamente com todo mundo, mas pocha, banheiro químico ainda não foi apresentado aos islandeses, foi difícil, mas sobrevivi, sem querer entrar em detalhes.
Conheci um menino de um olho de cada cor, apelidado carinhosamente de Bu, o canibal, já que quando era criança tinha mania de morder as visitas, segundo sua mãe. Ele me levou até a casa de verão do Jonsi, o vocalista do Sigur Rós, que ficava alí do lado, mas pena, ele não estava. Espiei os comodos pela janela, com meus olhos extremamente brilhantinosos.
Já era madrugada e eu já tinha uns cinco ou seis amigos islandeses excêntricos e sorridentes, meus colegas de acampamento já haviam se recolhido, e o céu permaneceu com cor de seis da tarde.

Eu voltei pro acampamento, atravessando um longo campo de mato muito alto, levando minha mão a acariciar a folhagem, contemplando o céu azul brilhoso das 3 da manhã, já com dor nas bochechas de tanto sorrir.

Um dia eu ainda escrevo pro Jonsi, agradecendo por ter me dado a Islandia de presente.


Meu lugar no mundo, Iceland summer '10





quarta-feira, 6 de abril de 2011

.A rua Cospe Fogo, numero cinco.

Deixaram-me sozinha na casa, na rua Spitfire, numero cinco, depois de todo aquele turbilhão de novidades e sentimentos no aeroporto e depois pelos cômodos da enorme habitação, as crianças já tinham corrido comigo por todos os lados, agarrado minhas pernas e me mostrado quase todas suas coisas, rindo, tossindo e rosnando.
Chovia, já haviam me dito que choveria muito naquelas terras, e eles me deixaram sozinha, como eu já havia dito. Tinham uma festa de aniversário e me deixaram, eu fiquei lá contemplando o teto branco, as paredes brancas, os corredores brancos, a vida de vidro...
...em um supetão levantei-me e desfiz toda a mala em um ataque de histerismo contido, dançando, cantando, ocupando a mente, tentando fazer daquela cena toda algo mais normal, era uma normalidade fingida, forçada, mas minha insanidade já havia começado alí, antes mesmo de pregar minha ultima foto, e colocar em todo aquele mundo branco minhas cores de terras já fisicamente tão distantes.
Eles chegaram então, umas três horas depois, como exatamente  haviam dito, foi servido o meu primeiro jantar, pontualmente as seis, sem feijão e sem arroz, meu assento marcado era a cabeceira, onde por muitas refeições daqueles 365 dias eu os observei como em um teatro particular.
Naquela primeira noite falaram, falaram e falaram e eu não entendi nada com coisa alguma, o pensamento que restava "o que vim fazer aqui ? amanhã eu volto pra casa hein"
Não voltei.


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E é assim bom começar pelo começo, o que for vindo, virá.


da janela do quarto