Leia ao som de - The food is still hot - Karen O and the Kids
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A menina mais nova tinha um mundo, o quarto dela era um mundo, paredes coloridas com um papel de parede mágico, tantas coisas e detalhes e cores, era um dos lugares mais coloridos da Holanda e portanto eu me sentia muito bem naquele mundo, o da irmã era bem colorido também, porem esta não passava muito tempo lá e nem me convidava a passar tempo com ela com a mesma frequência que a mais nova fazia.
Quantas tardes passamos ali desenhando de tudo, ouvindo música, principalmente a do gorila alemão com oculos de sol, fazendo adesivos com a maquina de adesivos que dei pra ela de aniversario, fazendo cosquinhas, muitas delas, cabaninhas e cortes e colagens e de vez em quando, uma arrumação fajuta, pra fazer a mãe dela feliz. Ela geralmente sentava no meu colo pra desenhar, e eu ficava lá junto, sentindo o cheirinho doce de seus cabelos louros. Eu nem sou uma desenhista, faço bonecos palitos, mas ela me fazia sentir o máximo porque amava tudo que eu fazia, achava tudo incrível e seguia meu modelo logo em seguida, eu gostava de subverter as coisas, inverter cores pra incitar o lado critico dela e ela ia junto, desenhando pros lados contrários, criando uma liberdade no papel, e lá fora o dia holandês ia se esvaindo, às vezes com sol, às vezes com chuva, neve tambem, e o canal ia passando calmo, ou congelado, e eu continuava a sentir o cheiro doce de seus cabelos por todo ano, e a paz invadia meu coração todas às vezes, podia congelar aqueles momentos pra poder voltar toda vez que quisesse.
Claro também tínhamos conflitos no mundo dela, como quando ela não queria se vestir pra ir pro ballet, ou pro hockey, ou não queria deitar, ou não queria dormir de tarde quando estava doente, e os pais queriam que ela dormisse, mas tudo que ela sabia fazer era me chamar a cada cinco minutos e eu não conseguia nem ir ao banheiro direito, às vezes eu me pegava sendo a louca mais estressada das loucas pra fazer ela se vestir pro treino de hockey que assim como eu ela detestava, gritava com ela, e aí ela começava a se virar toda na cama colocando os pés pra cima e eu me matava pra tentar enfiar a calça de qualquer jeito e no fim a gente sempre acabava rindo de qualquer coisa. Como aquela menina sabia me fazer rir, ela tinha esse poder sobre meu riso que era incrível.
Às vezes me via cansada da dependencia constante dela, mas hoje, exatamente agora eu daria tudo pra ouvir ela me chamando pra brincarmos em seu mundo colorido de novo, alongando os fonemas finais do meu nome, com seus dentinhos separados, se agarrando em minha cintura, colocando seus pés sob os meus enquanto cantavamos "I'm singing in the rain" :ó)
"I love you so so so much"
ao voltar daquele ano um amigo que ficou lá me escreveu "Para não esquecer, lembre-se todos os dias, nem que seja um pouco, de algo que viveu aqui." Criei o 365 então.
quinta-feira, 22 de março de 2012
sexta-feira, 2 de março de 2012
.Yara.
Yara vinha às sextas e me abraçava com muita verdade, eu esperava aquele abraço a semana inteira.
Ela tomava seu café habitual e contava da sua semana, logo já tirava seus panos egípcios e iniciava a odisseia pra limpar aquela casa gigantesca e eu ia com pesar começar a passar a pilha de camisas do pai da casa, odeio passar roupa e Yara às vezes queria ajudar.
A gente ficava rindo e conversando pelos corredores, mais tarde eu lavava minha roupa e tentava organizar a zona do meu quarto um pouquinho, ela ria de mim.
Ao meio dia era hora do almoço, sempre almoçávamos juntas, ela quase sempre trazia coisas de casa, eu guardava os restos do jantar especialmente pra isso, e faziamos uma junção de tudo e ficava aquele almoço mais árabe e mais brasileiro, nada de pão com manteiga apenas como fazem os holandeses, ficava tão especial que começamos a convidar a mãe da casa para almoçar conosco e nossos almoços viraram tradição na casa.
Yara ria e ria e sorria, falava inglês misturado com holandês misturado com árabe e eu amava ouvi-la falar.
Dançava e ouvia suas músicas árabes que ecoavam por toda casa, me fazia rir e rir e sorrir, às vezes deitava um pouquinho na minha cama, sempre confessava que não fazia os rituais da sua religião, nem rezava mais, dizia que a vida no ocidente não lhe permitia, eu a chavama de "bad muslim" e ela ria mais.
Ela me chamava de querida, ao partir sempre vinha me dar um beijo terno, no rosto, ou no pescoço, e eu depois de um tempo, comecei a misturar holandes com inglês e nos entendiamos mais e mais, daquela forma meio torta, mas com Yara aprendi que gestos falam tão mais alto.
Teve dias que as histórias foram tristes,nem sempre era fácil ser muçulmana trabalhadora vivendo no ocidente e nem ser brasileira latina pobre vivendo na casa de holandeses tradicionais, mas por toda sorte do mundo, eu tive a Yara.
Em sua casa tudo era tão verdade, o cheiro de comida dançava pela casa, suas filhas, Bisan e Ranin, não me entendiam muito mas nos divertíamos tanto sem necessidade de palavras, comíamos tanto e tudo era feito pelas mãos, sem maquinas pra tudo, como na casa holandesa, eu sentia tanta falta dessa verdade.
Em nossa despedida Yara foi forte, eu não, chorei sem conseguir disfarçar, chorei de uma dor que vinha de um profundo tão imenso e a vi partir, seguindo a pé até o tram. Queria poder abraça-la de novo, ainda mais agora que espera um terceiro filho, queria ouvi-la rir de mim e fazer aqueles sons do Egito.
Yara eu ainda vou conseguir fazer o Ramadan pra me lembrar mais vivamente ainda de você, mas ano passado não consegui.
Te amo muito pra sempre.
Ela tomava seu café habitual e contava da sua semana, logo já tirava seus panos egípcios e iniciava a odisseia pra limpar aquela casa gigantesca e eu ia com pesar começar a passar a pilha de camisas do pai da casa, odeio passar roupa e Yara às vezes queria ajudar.
A gente ficava rindo e conversando pelos corredores, mais tarde eu lavava minha roupa e tentava organizar a zona do meu quarto um pouquinho, ela ria de mim.
Ao meio dia era hora do almoço, sempre almoçávamos juntas, ela quase sempre trazia coisas de casa, eu guardava os restos do jantar especialmente pra isso, e faziamos uma junção de tudo e ficava aquele almoço mais árabe e mais brasileiro, nada de pão com manteiga apenas como fazem os holandeses, ficava tão especial que começamos a convidar a mãe da casa para almoçar conosco e nossos almoços viraram tradição na casa.
Yara ria e ria e sorria, falava inglês misturado com holandês misturado com árabe e eu amava ouvi-la falar.
Dançava e ouvia suas músicas árabes que ecoavam por toda casa, me fazia rir e rir e sorrir, às vezes deitava um pouquinho na minha cama, sempre confessava que não fazia os rituais da sua religião, nem rezava mais, dizia que a vida no ocidente não lhe permitia, eu a chavama de "bad muslim" e ela ria mais.
Ela me chamava de querida, ao partir sempre vinha me dar um beijo terno, no rosto, ou no pescoço, e eu depois de um tempo, comecei a misturar holandes com inglês e nos entendiamos mais e mais, daquela forma meio torta, mas com Yara aprendi que gestos falam tão mais alto.
Teve dias que as histórias foram tristes,nem sempre era fácil ser muçulmana trabalhadora vivendo no ocidente e nem ser brasileira latina pobre vivendo na casa de holandeses tradicionais, mas por toda sorte do mundo, eu tive a Yara.
Em sua casa tudo era tão verdade, o cheiro de comida dançava pela casa, suas filhas, Bisan e Ranin, não me entendiam muito mas nos divertíamos tanto sem necessidade de palavras, comíamos tanto e tudo era feito pelas mãos, sem maquinas pra tudo, como na casa holandesa, eu sentia tanta falta dessa verdade.
Em nossa despedida Yara foi forte, eu não, chorei sem conseguir disfarçar, chorei de uma dor que vinha de um profundo tão imenso e a vi partir, seguindo a pé até o tram. Queria poder abraça-la de novo, ainda mais agora que espera um terceiro filho, queria ouvi-la rir de mim e fazer aqueles sons do Egito.
Yara eu ainda vou conseguir fazer o Ramadan pra me lembrar mais vivamente ainda de você, mas ano passado não consegui.
Te amo muito pra sempre.
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| Última vez na casa dela |
terça-feira, 15 de novembro de 2011
.sobre a rotina.
Leia ao som de Take me Home - Russian Red
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Devem ter sido por volta de trezentas embaladas de alumínio nos pães para as lancheiras das meninas, manteiga de amendoim pra Hanna, nutella pra Amber. Subir, escovar dentes, fazer os cabelos, entregar as lancheiras, separar umas brigas de quando em quando, dar tchau antes de irem pra escola com os pais, adorar o silêncio, subir, fazer as camas, abrir as janelas pra entrar um ár, fecha-las, pelas sextas trocar os lençóis, descer, ver email, facebook, essas coisas, cochilo, almoço, aquele pão descongelado com manteiga e flocos de chocolate, meu favorito, escrever, ler, ir busca-las, as vezes ir ao mercado, biblioteca. Na escola Amber sempre saia primeiro, me abraçava, jogava a mochila, ia rodar naquelas barras estranhas, pedia pra brincar com uma amiguinha, Hanna sempre pedia pra brincar e sempre demorava, e quantas vezes tinha que dizer não, porque tinha ballet, ou hockey, ou musical, ou qualquer outra atividade que limitava muito o tempo livre daquelas garotas, as vezes dava pena.
A logistica às vezes era complicada, deixar um em um lugar, buscar outra em outro, quiça até rolava almoço pra elas dentro da bicicleta, portanto chegar em casa era sempre um alivio, ainda mais em dias chuvosos ou no inverno quando tinhamos que pedalar no escuro, gostava muito da escola de ballet no entanto, ficava lá com a Kelsey geralmente, tomando chá comendo misto-quente.
Cinco horas começava a preparar o jantar, checava as lancheiras, Amber quase nunca bebia aquele leite de cabra fedido, as deixava assistir tv finalmente, as seis todos à mesa, depois subiam com os pais, eu ficava com a cozinha, e por vezes, quando eles me pediam para fazer babysit, eu ficava com a cozinha e com elas tambem e terminava o dia morta, ainda mais se tivesse sido dia livre da Amber na escola. Amber sempre queria desenhar mais um pouco, Hanna absorta em seus livros, era sempre uma negociação, ela dizia "mais duas paginas" eu "mais uma" ela dizia "mais três", eu "mais duas e ponto final", na verdade só fazia aquilo pra não perder minha autoridade, mas eu jamais iria recusar um pedido de uma criança que quer ler livros, geralmente descia pro meu quarto e só subia quando certeza, ela ja teria lido quase o livro todo, nunca contem aos seus pais dela por favor. rs
Em alguns dias a rotina me corroía, eu não lembro mais desse sentimento, mas sei que ele existiu, nenhum dia era igual ao outro, mas às vezes me sentia presa em uma casa de brinquedo, em um bairro da fantasia, tendo que fazer coisas mecanicalmente todos os dias, não ter que ir a lugar algum, não precisar ser ninguém dentro de um contexto mais coletivamente amplo, não fazer parte de grupos sociais, ser apenas uma desgarrada de sua pátria vivendo na casa alheia com data marcada de fim, às vezes me pegava no quarto das meninas deitada no chão olhando pro teto, ou de beira com o canal, olhando pro céu, que na Holanda parecia tão mais longe de mim, ao mesmo tempo que me sentia tão alí, não me sentia tambem, acho que deve ser um sentimento parecido se alguém fica sabendo a data que irá morrer, eu não iria morrer mesmo, mas iria partir daquela vida dentro de tantos meses, dias, horas e minutos, e cada dia era um dia a menos, e a rotina não mudaria por minha causa, e era a mesma antes da minha chegada, e teria que continuar depois que eu partisse, muitas haviam feito o mesmo antes, e outras fariam depois, não adiantava então lutar contra a rotina, porque ela era muito mais real e tangível que eu mesma, aprendi então em pouco tempo a saborea-la, curti-la e ser amiga dela, me despedia dela aos fins de semana e nos feriados prolongados, voltava meio perdida, mas sentava com ela de novo, tranquilamente no chão do quarto das pequenas, às vezes chorava ao seu lado, sorria, ria e tinha medo do seu fim, pra mim.
Eu parti, a rotina ficou e me partiu em duas.
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Devem ter sido por volta de trezentas embaladas de alumínio nos pães para as lancheiras das meninas, manteiga de amendoim pra Hanna, nutella pra Amber. Subir, escovar dentes, fazer os cabelos, entregar as lancheiras, separar umas brigas de quando em quando, dar tchau antes de irem pra escola com os pais, adorar o silêncio, subir, fazer as camas, abrir as janelas pra entrar um ár, fecha-las, pelas sextas trocar os lençóis, descer, ver email, facebook, essas coisas, cochilo, almoço, aquele pão descongelado com manteiga e flocos de chocolate, meu favorito, escrever, ler, ir busca-las, as vezes ir ao mercado, biblioteca. Na escola Amber sempre saia primeiro, me abraçava, jogava a mochila, ia rodar naquelas barras estranhas, pedia pra brincar com uma amiguinha, Hanna sempre pedia pra brincar e sempre demorava, e quantas vezes tinha que dizer não, porque tinha ballet, ou hockey, ou musical, ou qualquer outra atividade que limitava muito o tempo livre daquelas garotas, as vezes dava pena.
A logistica às vezes era complicada, deixar um em um lugar, buscar outra em outro, quiça até rolava almoço pra elas dentro da bicicleta, portanto chegar em casa era sempre um alivio, ainda mais em dias chuvosos ou no inverno quando tinhamos que pedalar no escuro, gostava muito da escola de ballet no entanto, ficava lá com a Kelsey geralmente, tomando chá comendo misto-quente.
Cinco horas começava a preparar o jantar, checava as lancheiras, Amber quase nunca bebia aquele leite de cabra fedido, as deixava assistir tv finalmente, as seis todos à mesa, depois subiam com os pais, eu ficava com a cozinha, e por vezes, quando eles me pediam para fazer babysit, eu ficava com a cozinha e com elas tambem e terminava o dia morta, ainda mais se tivesse sido dia livre da Amber na escola. Amber sempre queria desenhar mais um pouco, Hanna absorta em seus livros, era sempre uma negociação, ela dizia "mais duas paginas" eu "mais uma" ela dizia "mais três", eu "mais duas e ponto final", na verdade só fazia aquilo pra não perder minha autoridade, mas eu jamais iria recusar um pedido de uma criança que quer ler livros, geralmente descia pro meu quarto e só subia quando certeza, ela ja teria lido quase o livro todo, nunca contem aos seus pais dela por favor. rs
Em alguns dias a rotina me corroía, eu não lembro mais desse sentimento, mas sei que ele existiu, nenhum dia era igual ao outro, mas às vezes me sentia presa em uma casa de brinquedo, em um bairro da fantasia, tendo que fazer coisas mecanicalmente todos os dias, não ter que ir a lugar algum, não precisar ser ninguém dentro de um contexto mais coletivamente amplo, não fazer parte de grupos sociais, ser apenas uma desgarrada de sua pátria vivendo na casa alheia com data marcada de fim, às vezes me pegava no quarto das meninas deitada no chão olhando pro teto, ou de beira com o canal, olhando pro céu, que na Holanda parecia tão mais longe de mim, ao mesmo tempo que me sentia tão alí, não me sentia tambem, acho que deve ser um sentimento parecido se alguém fica sabendo a data que irá morrer, eu não iria morrer mesmo, mas iria partir daquela vida dentro de tantos meses, dias, horas e minutos, e cada dia era um dia a menos, e a rotina não mudaria por minha causa, e era a mesma antes da minha chegada, e teria que continuar depois que eu partisse, muitas haviam feito o mesmo antes, e outras fariam depois, não adiantava então lutar contra a rotina, porque ela era muito mais real e tangível que eu mesma, aprendi então em pouco tempo a saborea-la, curti-la e ser amiga dela, me despedia dela aos fins de semana e nos feriados prolongados, voltava meio perdida, mas sentava com ela de novo, tranquilamente no chão do quarto das pequenas, às vezes chorava ao seu lado, sorria, ria e tinha medo do seu fim, pra mim.
Eu parti, a rotina ficou e me partiu em duas.
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| A rotina da despedida |
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
.ensaios sobre neve.
Leia ao som de Snow - Kokim Gumi
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O fim do verão na Holanda foi tão triste, todos os brinquedos de jardim das meninas foram recolhidos e guardados no porão, as pernas de pau, a piscina de plastico, as raquetes, as pistolas d'agua que eu tanto amava e qualquer outra coisa que havíamos usado todo o verão para nos divertir no grande jardim da casa na Spitfire 5.
As folhas das árvores se desprenderam todas, o canal que passava aos fundos da casa começou a congelar dia-a-dia, o sistema de aquecimento automático ligou finalmente, o chão se aquecia de forma uniforme, as roupas de verão das meninas foram pro sotão, a noite passou a nos visitar tão mais cedo, 5 da tarde já estava tudo escuro, todas as lampadas de nossas bikes foram revisadas e trocadas na bicicletária. Foi enfim todo um processo para irmos de uma estação a outra, os holandeses já estavam habituados e eu observava tudo aquilo como um grande espetáculo com sabor de uma vez só.
Havia dado no jornal que seria o inverno mais frio dos últimos mil anos, achei graça, não me abalei muito, na verdade esperava ansiosa pela neve, já a conhecia, mas queria muito ve-la novamente, já fazia tempo desde a ultima vez.
Um dia cozinhava contente enquanto as meninas assistiam tv na sala, olhei pela janela e vi o canal quase todo congelado, voltei aos meus legumes e quando olhei pela janela de novo, tudo estava branco como um pão doce de padaria, foi incrível como a danada chegou sorrateira, fui correndo pela casa para contar para as meninas a novidade, e nos três colamos nossas caras contra a janela para observar a neve rala e brilhante que caia leve sobre todas as coisas, foi tão bonita nossa alegria partilhada.
Nevou bastante nos dias seguintes, às vezes chovia e neve derretia toda, só ficava as placas de gelos escorregadias pelas ruas e sobre a cama elástica, depois nevava tudo de novo, diziam que eu tinha sorte, porque não era todos anos que havia tanta neve, às vezes toda aquela neve foi um problema enorme, tal como quando os trams paravam de passar e eu e as meninas tínhamos que ir pro centro de sport de inverno que era longe pra caramba, os holandeses ficavam enlouquecidos sem transporte público, eu via a hora que começariam a se estapear nas ruas do centro de Den Haag, por não saberem como lidar com o caos, mas mesmo assim, neve é uma coisa que deixa qualquer adulto virar criança de novo e animava a gente com todo aquele frio, até meus hostparents, que eram as pessoas mais adultas que conheci na vida, se deixavam levar pela magia da neve.
Uma noite saindo de um restaurante depois de um jantar em família apos uma tarde no circo de Natal, eu os pais e as meninas iniciamos uma super guerra de bolas de neve, corríamos pelo estacionamento, nos escondíamos atras dos carros e riamos sem parar, nunca tinha brincado com todos eles juntos, os avós e os tios ficaram nos observando na escadaria do restaurante, nunca me senti tão parte daquela família como naquela noite. Entramos no carro tempos depois cheias de neve até as orelhas, caras vermelhas, rindo, sem necessidade de muita comunicação verbal, de rostos gelados e corações quentes.
Queria ter trazido um pouco de neve pra casa, mas me disseram que derreteria.
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O fim do verão na Holanda foi tão triste, todos os brinquedos de jardim das meninas foram recolhidos e guardados no porão, as pernas de pau, a piscina de plastico, as raquetes, as pistolas d'agua que eu tanto amava e qualquer outra coisa que havíamos usado todo o verão para nos divertir no grande jardim da casa na Spitfire 5.
As folhas das árvores se desprenderam todas, o canal que passava aos fundos da casa começou a congelar dia-a-dia, o sistema de aquecimento automático ligou finalmente, o chão se aquecia de forma uniforme, as roupas de verão das meninas foram pro sotão, a noite passou a nos visitar tão mais cedo, 5 da tarde já estava tudo escuro, todas as lampadas de nossas bikes foram revisadas e trocadas na bicicletária. Foi enfim todo um processo para irmos de uma estação a outra, os holandeses já estavam habituados e eu observava tudo aquilo como um grande espetáculo com sabor de uma vez só.
Havia dado no jornal que seria o inverno mais frio dos últimos mil anos, achei graça, não me abalei muito, na verdade esperava ansiosa pela neve, já a conhecia, mas queria muito ve-la novamente, já fazia tempo desde a ultima vez.
Um dia cozinhava contente enquanto as meninas assistiam tv na sala, olhei pela janela e vi o canal quase todo congelado, voltei aos meus legumes e quando olhei pela janela de novo, tudo estava branco como um pão doce de padaria, foi incrível como a danada chegou sorrateira, fui correndo pela casa para contar para as meninas a novidade, e nos três colamos nossas caras contra a janela para observar a neve rala e brilhante que caia leve sobre todas as coisas, foi tão bonita nossa alegria partilhada.
Nevou bastante nos dias seguintes, às vezes chovia e neve derretia toda, só ficava as placas de gelos escorregadias pelas ruas e sobre a cama elástica, depois nevava tudo de novo, diziam que eu tinha sorte, porque não era todos anos que havia tanta neve, às vezes toda aquela neve foi um problema enorme, tal como quando os trams paravam de passar e eu e as meninas tínhamos que ir pro centro de sport de inverno que era longe pra caramba, os holandeses ficavam enlouquecidos sem transporte público, eu via a hora que começariam a se estapear nas ruas do centro de Den Haag, por não saberem como lidar com o caos, mas mesmo assim, neve é uma coisa que deixa qualquer adulto virar criança de novo e animava a gente com todo aquele frio, até meus hostparents, que eram as pessoas mais adultas que conheci na vida, se deixavam levar pela magia da neve.
Uma noite saindo de um restaurante depois de um jantar em família apos uma tarde no circo de Natal, eu os pais e as meninas iniciamos uma super guerra de bolas de neve, corríamos pelo estacionamento, nos escondíamos atras dos carros e riamos sem parar, nunca tinha brincado com todos eles juntos, os avós e os tios ficaram nos observando na escadaria do restaurante, nunca me senti tão parte daquela família como naquela noite. Entramos no carro tempos depois cheias de neve até as orelhas, caras vermelhas, rindo, sem necessidade de muita comunicação verbal, de rostos gelados e corações quentes.
Queria ter trazido um pouco de neve pra casa, mas me disseram que derreteria.
| e da janela eu podia ver |
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
.Segundo Sol.
Leia ao som de Sigur Rós - Inní Mér Syngur Vitleysingur
A família partiu pela manhã, seguiram pra Áustria, só nos veríamos em duas semanas, eu e as meninas nos abraçamos tanto e tantas vezes ao se despedir que até fiquei cansada, elas ficaram acenando para mim até o carro deles virar a rua e sumir do meu campo de visão.
Eu ainda não acreditava que aquela noite embarcaria para a tão sonhada Islândia, meu voo Icelandair sairia do aeroporto internacional de Schiphol às 23h45.
Deixei a casa na rua Spitfire número 5 por volta das 18h, chequei todas as trancas, janelas, esvaziei a fruteira, tirei equipamentos eletronicos das tomadas, terminei de fazer a mala, fiz lanchinhos pra viagem, organizei o quarto, acionei o alarme, dei uma última olhadela pra grande casa e parti. Era um dia quente de verão, daqueles que o sol só se despedia as 23h e que me dão um bocado de saudades.
Peguei o trem errado, um que não fazia parada no aeroporto, fui parar em Amsterdam, conheci um africano refugiado do Congo que me contou toda a triste história da guerra civil em seu pais, ele gostou de mim, fez questão de me levar até o trem certo e se despediu calorosamente como se fosse um amigo próximo.
Encontrei-me com uma amiga au pair do sul do Brasil no aeroporto, a doce Beth, assistimos o primeiro tempo do jogo final da copa do mundo, Holanda contra Espanha, em um bar e depois em um grande telão instalado em frente ao Schiphol, com tantos outros holandeses esperançosos.
Antes de começar o segundo tempo, ainda em zero a zero, me despedi da Beth, fiz check in e fui pra sala de espera, assisti os momentos finais do jogo da janela do avião antes do mesmo decolar, vinte minutos depois o piloto nos deu a noticia que a Espanha havia ganhado, para a tristeza das tantas famílias holandesas a bordo, confesso também fiquei meio triste, ao pensar nas meninas.
Decolamos, já escurecia na Holanda, dez minutos depois já estávamos sobre o mar, era tão bonito, a escuridão foi devorando o oceano e quando já estavamos em completa escuridão, o sol voltou a despontar lá no horizonte e pouco depois nasceu pela segunda vez naquele dia para nós, meus olhos ficaram úmidos em lágrimas de alegria, lembrei-me do pequeno príncipe, que podia ver quantos pores-do-sol quisesse por dia em seu pequeno planeta, e que gostava de fazê-lo quando estava triste, não sei como cheguei a ter a chance de ter dois pores- do- sol no mesmo dia, mas a sensação sem dúvida não tinha nada a ver com qualquer tristeza possível.
Aterrissar na Islândia foi como aterrissar na Lua, nunca fui a lua, mas estou quase certa que o sentimento é parecido, aquele chão de lava de vulcão solidificada, todo aquela imensidão inabitada , questionei até se existia vida naquele "planeta". Eu não via a hora de poder pisar em tudo aquilo e explorar o que pudesse, me invadir de tanta luz, solitude e espaço. E foi o que fiz.
Tudo aquilo foi tão grandioso que hoje verbalizar é até meio difícil, se nostalgia me desse vontade de ver pores-do-sol, teria que ir e voltar lá muitas vezes no mesmo dia hoje.
E, foi verdade, não escureceu nenhum dia na Islândia.
A família partiu pela manhã, seguiram pra Áustria, só nos veríamos em duas semanas, eu e as meninas nos abraçamos tanto e tantas vezes ao se despedir que até fiquei cansada, elas ficaram acenando para mim até o carro deles virar a rua e sumir do meu campo de visão.
Eu ainda não acreditava que aquela noite embarcaria para a tão sonhada Islândia, meu voo Icelandair sairia do aeroporto internacional de Schiphol às 23h45.
Deixei a casa na rua Spitfire número 5 por volta das 18h, chequei todas as trancas, janelas, esvaziei a fruteira, tirei equipamentos eletronicos das tomadas, terminei de fazer a mala, fiz lanchinhos pra viagem, organizei o quarto, acionei o alarme, dei uma última olhadela pra grande casa e parti. Era um dia quente de verão, daqueles que o sol só se despedia as 23h e que me dão um bocado de saudades.
Peguei o trem errado, um que não fazia parada no aeroporto, fui parar em Amsterdam, conheci um africano refugiado do Congo que me contou toda a triste história da guerra civil em seu pais, ele gostou de mim, fez questão de me levar até o trem certo e se despediu calorosamente como se fosse um amigo próximo.
Encontrei-me com uma amiga au pair do sul do Brasil no aeroporto, a doce Beth, assistimos o primeiro tempo do jogo final da copa do mundo, Holanda contra Espanha, em um bar e depois em um grande telão instalado em frente ao Schiphol, com tantos outros holandeses esperançosos.
Antes de começar o segundo tempo, ainda em zero a zero, me despedi da Beth, fiz check in e fui pra sala de espera, assisti os momentos finais do jogo da janela do avião antes do mesmo decolar, vinte minutos depois o piloto nos deu a noticia que a Espanha havia ganhado, para a tristeza das tantas famílias holandesas a bordo, confesso também fiquei meio triste, ao pensar nas meninas.
Decolamos, já escurecia na Holanda, dez minutos depois já estávamos sobre o mar, era tão bonito, a escuridão foi devorando o oceano e quando já estavamos em completa escuridão, o sol voltou a despontar lá no horizonte e pouco depois nasceu pela segunda vez naquele dia para nós, meus olhos ficaram úmidos em lágrimas de alegria, lembrei-me do pequeno príncipe, que podia ver quantos pores-do-sol quisesse por dia em seu pequeno planeta, e que gostava de fazê-lo quando estava triste, não sei como cheguei a ter a chance de ter dois pores- do- sol no mesmo dia, mas a sensação sem dúvida não tinha nada a ver com qualquer tristeza possível.
Aterrissar na Islândia foi como aterrissar na Lua, nunca fui a lua, mas estou quase certa que o sentimento é parecido, aquele chão de lava de vulcão solidificada, todo aquela imensidão inabitada , questionei até se existia vida naquele "planeta". Eu não via a hora de poder pisar em tudo aquilo e explorar o que pudesse, me invadir de tanta luz, solitude e espaço. E foi o que fiz.
Tudo aquilo foi tão grandioso que hoje verbalizar é até meio difícil, se nostalgia me desse vontade de ver pores-do-sol, teria que ir e voltar lá muitas vezes no mesmo dia hoje.
E, foi verdade, não escureceu nenhum dia na Islândia.
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| Meu segundo por-do-sol. |
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
.trem para Tessalônica.
Leia ao som de Milice - Foltin
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O trem partiu ás 22h da estação de trem de Belgrado, era um trem dos anos 50 acredito, de estofado de couro marrom, cortinas amarelas e chão bege desbotado, bastante vazio, afinal o ônibus ia muito mais rápido, mas eu ainda acreditava que de trem tinha mais chances de atravessar a fronteira, e lá estávamos nos, nos vagões que seguiam para Tessalônica com parada em Skopje, diziam ainda que outros vagões chegariam em lugares ainda mais longínquos como a Turquia.
Eu não preguei os olhos durante toda a noite, querida Sylvie dormia esparramada de boca aberta como de costume, o que sempre me fazia rir, foi mais engraçado ainda quando um oficial da fronteira passou para pedir passaportes e viu ela nesse estado. Durante todo percurso eu escrevi e sonhei com com as ruas macedônias, pensava no brilho do olhar daquele que me inspirou a viagem quando falava de lá e nas pessoas que conheceria, eu sempre tive os pressentimentos mais doces em relação aquela jornada e só o pensar em não conseguir entrar me impedia de dormir por completo.
Foi então que as 5h da manhã alcançamos a fronteira, o trem parou, se desligou, e a espera de alguns minutos pelos oficiais me pareceu anos, podia ver a bandeira macedonia estiada reluzente quase em cima de nossas cabeças, e ouvir os passos lentos daqueles que decidiriam meu destino apartir dalí, acho que nesse momento já era possível para qualquer um ouvir as batidas do meu bombeador de sangue, vulgo coração.
O oficial não falava inglês praticamente e nossa comunicação foi marraconica, ele parecia meio retardado, anunciou para os outros outros poucos passageiros a minha nacionalidade e começou a falar "Ronaldo, futebol" insistidamente, várias vezes a rir como um boçal com um tom que soava tão ironico, eu me sentia em uma inspeção nazista durante a segunda guerra ou coisa que o valha, mas ao fim, ele parecia muito feliz com a minha visita, me deu um carimbo e desejou boa viagem, e o alivio, a alegria, nem dá pra verbalizar, Sylvie também sorria muito e logo dormiu de novo, eu não dormi nada, mas daquela vez era a euforia que não me permitia, saboreava cada metro de terra daquele país misterioso, era lindo, e o por do sol me veio dar bom dia acanhado passado alguns minutos.
Depois dos três dias mais genialmente longos de minha vida em Skopje, quando finalmente cheguei na Holanda, notei que no regresso esqueceram de carimbar minha saída do pais.
Acho que, verdadeiramente, nunca deixei a Macedônia.
Aj dali znaesh,
Pametish Milice, Koga si bevme malechki, Koga si bevme malechki Milice Koga se dvajsata ljubevme!
.Sakam te.
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| Assim que o trem começou a deixar a fronteira. |
![]() |
| E o nascer do sol de minutos depois. |
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
.ensaio sobre viagens de bicicleta.
Leia ao som de Bicycle Race - Queen
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Pequenas, enormes, coloridas, floridas, fluorescentes, duplas, mono, normais, inusitadas, bizarras...
Na Holanda não existe tipo de bicicleta que não existe, entende? As famosas fiets como eles dizem. E apesar de toda planície nem sempre pedalar era a coisa mais fácil do mundo, em dias de ventania, que eram bem comuns por lá, eu sofria muito e minhas perninhas mais ainda, sem contar as grandes chances de ser derrubado pelo vento o que era um bocado assustador.
Em um dia ensolarado de domingo, porem, resolvi fazer uma bike trip, com a Alena, a menina tcheca que morava na rua de baixo. Nem foi assim uma viagem a lá Jules Vernes, fui apenas até Leiden, uma cidade 20 kilometros distante da minha, mas foi minha primeira e única e foi especial pra burro.
Levamos mais ou menos uma hora e meia pra chegarmos, paravámos para tirar fotos, apreciar moinhos de vento e canais, comer cenouras, tomar sorvetes nas sorveterias de pequenos vilarejos e conversar sobre nossas vidas na Holanda, sobre minhas peripécias no Brasil, sobre os verões em Praga de Alena. Era primavera, não fazia calor, mas o sol já começara a fazer um papel mais importante que apenas iluminar os dias de forma passiva, fomos por uma estradinha cheia de casinhas tipicas, fazendas, cavalos e ovelhas, e eu como sempre, quando no silêncio, me pegava imaginando a vida dentro de cada um daqueles universos, a sorrir.
Ao chegar em Leiden, nos juntamos aos outros trezentos e cinquenta mil ciclistas que circulavam pelas ciclovias da cidade, tinha um casal recém-casado saindo de uma igreja e convidados soltaram mais de cem bexigas coloridas ao ár quando eles desceram as escadarias, paramos em um café, visitamos um museu de arte egípcia e uma feira de rua, e é assim, varias fotos de memórias daquele dia solto no tempo, tão vivo na lembrança.
O regresso foi mais difícil, a temperatura tinha caído um pouco e o vento não estava ao nosso favor, em um momento quase já não sentia mais as pernas, mas era daquelas coisas impossíveis de se arrepender mesmo que fosse por um segundo.
Dormi cedo aquele dia, sorrindo como uma criança carregando um pacote de marshmallows.
Eu havia aprendido a andar de bicicleta faziam cinco meses então.
Obrigada Alena.
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Pequenas, enormes, coloridas, floridas, fluorescentes, duplas, mono, normais, inusitadas, bizarras...
Na Holanda não existe tipo de bicicleta que não existe, entende? As famosas fiets como eles dizem. E apesar de toda planície nem sempre pedalar era a coisa mais fácil do mundo, em dias de ventania, que eram bem comuns por lá, eu sofria muito e minhas perninhas mais ainda, sem contar as grandes chances de ser derrubado pelo vento o que era um bocado assustador.
Em um dia ensolarado de domingo, porem, resolvi fazer uma bike trip, com a Alena, a menina tcheca que morava na rua de baixo. Nem foi assim uma viagem a lá Jules Vernes, fui apenas até Leiden, uma cidade 20 kilometros distante da minha, mas foi minha primeira e única e foi especial pra burro.
Levamos mais ou menos uma hora e meia pra chegarmos, paravámos para tirar fotos, apreciar moinhos de vento e canais, comer cenouras, tomar sorvetes nas sorveterias de pequenos vilarejos e conversar sobre nossas vidas na Holanda, sobre minhas peripécias no Brasil, sobre os verões em Praga de Alena. Era primavera, não fazia calor, mas o sol já começara a fazer um papel mais importante que apenas iluminar os dias de forma passiva, fomos por uma estradinha cheia de casinhas tipicas, fazendas, cavalos e ovelhas, e eu como sempre, quando no silêncio, me pegava imaginando a vida dentro de cada um daqueles universos, a sorrir.
Ao chegar em Leiden, nos juntamos aos outros trezentos e cinquenta mil ciclistas que circulavam pelas ciclovias da cidade, tinha um casal recém-casado saindo de uma igreja e convidados soltaram mais de cem bexigas coloridas ao ár quando eles desceram as escadarias, paramos em um café, visitamos um museu de arte egípcia e uma feira de rua, e é assim, varias fotos de memórias daquele dia solto no tempo, tão vivo na lembrança.
O regresso foi mais difícil, a temperatura tinha caído um pouco e o vento não estava ao nosso favor, em um momento quase já não sentia mais as pernas, mas era daquelas coisas impossíveis de se arrepender mesmo que fosse por um segundo.
Dormi cedo aquele dia, sorrindo como uma criança carregando um pacote de marshmallows.
Eu havia aprendido a andar de bicicleta faziam cinco meses então.
Obrigada Alena.
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