Fomos toda a família pra igreja do bairro, acho que foi a última vez que fui a igreja na vida.
O motivo era certo: missa pra inciar os trabalhos de catecismo de Amber.
Havíamos passado uma manhã inteira juntas aquela semana, para fazermos uma flor de papel com uma foto dela ao meio, era uma lição de casa da primeira semana de sua catequese, seria usada na igreja, diziam.
Fizemos uma flor colorida, tamanho médio, com uma foto exibindo seus grandes dentes brancos, ela estava feliz e orgulhosa, eu também estava.
Entrei na igreja com carinho por Amber, as igrejas holandesas de tijolos avermelhados, piso muito claro, madeira das colonias, tinha um coral de crianças louras e mais muitas cabeças louras naquele mar holandês nos acentos a frente.
O padre tinha aquela aparência de todo padre, simpático tentando ao máximo ser engraçado com crianças mesmo que com pouco sucesso - Amber não riu muito e ela sabia rir de coisas realmente engraçadas, tanto quanto ela era.
O coral cantava lindo, era emocionante mesmo de ouvir e como em todo evento naquela minha vida de país baixo, ver a Amber fazendo qualquer coisa, ou a Hanna, sempre trazia lágrimas aos olhos, porque tudo tinha um sabor amargo e doce de única vez e era sempre um constante adeus irreparável e insolúvel de todas as coisas.
O momento da flor então chegou, o padre ia chamando o nome das crianças, uma por uma e elas deixavam suas famílias para ir até o altar, entregavam a flor que o padre colocava em um grande vaso e respondiam algumas perguntas aleatórias sobre suas vidas. Amber ficou tímida, as bochechas avermelharam.
E no meio de todos aqueles nomes holandeses - Rosalie, Luuk, Lisa, Tim, Lars, Roos - o padre chamou um nome diferente - Jamal, Jamal... Jamal.
Jamal demorou um pouco para responder, estava sentado no fundo da igreja, no último banco, com a única família negra em toda visão. Ele caminhou em direção ao altar de forma compassada e rítmica, com seus cabelos trançados, arrancando olhares curiosos; a flor de Jamal era a maior flor de todas as flores, possível daquela missa de catecismo e todas as outras anteriores, era uma flor linda, realmente gigante, redonda, de pétalas multicolores, cores vivas, vibrantes e fortes, uma foto bem grande dele ao meio.
A flor de Jamal cobriu todas as outras flores, tinha pouco vaso para todas aquelas cores em dança excentrica de amarelo, vermelho, verde e roxo.
Ela, em toda sua efemeridade, em toda sua saudade.
Era livre.
ao voltar daquele ano um amigo que ficou lá me escreveu "Para não esquecer, lembre-se todos os dias, nem que seja um pouco, de algo que viveu aqui." Criei o 365 então.
quinta-feira, 19 de março de 2015
terça-feira, 15 de abril de 2014
balões em multicolores
As pessoas começaram a ir embora de pouco em pouco, já tão agitadas pela alegria dos dias que invadiam os corações pelo verão parisiense.
Nós dois fomos ficando, cada vez mais agitados também, pela noite quente beira ao rio que nos consumia acelerada e doce.
Nos vimos os dois, alí sentados, depois de um dia cheio de gestos e palavras, de um reencontro repentino cheio de balões multicoloridos, malabares, amigos, amor e vinho.
As palavras foram encurtando, dando espaço para um silêncio suave. coração batia em compasso de canção feliz e rápida, calma e derretida.
Um jogo de palavras soltas qualquer, um óculos também e a certeza de que queríamos a mesma coisa veio assim, fugaz, dentro de um ritmo sútil e verossímil.
Dei-lhe um beijo na testa, um na bochecha, outro no queixo, leves beijos em toda sua face, ele os recebia em paz e de coração aberto.
"its feels so good" sussurrou.
Alcancei seus lábios e nos beijamos de forma inquieta e terna e quente, durou um instante e foi pra sempre.
Saímos pela cidade apaixonados dentro daquelas horas, brincávamos com todos os transeuntes, todas as verdades ditas e as não ditas, corríamos, andávamos lento, ríamos mais, andávamos mais rápido, atravessávamos onde não se podia, a morte seria impossível dentro de tamanha eloquência dos sentidos.
Cerrei meus olhos e pedi que me guiasse e o fez, braços passados em minha nuca, beijava-me a testa, dava orientações tão claras, sua voz entrava dentro da parte mais doce e suave que há em mim, por todos os cantos, não me deixou cair, nem tropeçar, me guiou pela cidade luz sem que nenhuma luz por mim precisasse ser vista, colocou sem saber aquele verão, em uma fotografia em preto, branco, em filtros frutacor, em monocromático e sépia.
Chegamos em seu apartamento no 16º arrondissement.
E tudo foi amor, calor e saudades.
Calor, amor e saudades
Amor e saudades
Saudades...
_____________________________________________________________
Nós dois fomos ficando, cada vez mais agitados também, pela noite quente beira ao rio que nos consumia acelerada e doce.
Nos vimos os dois, alí sentados, depois de um dia cheio de gestos e palavras, de um reencontro repentino cheio de balões multicoloridos, malabares, amigos, amor e vinho.
As palavras foram encurtando, dando espaço para um silêncio suave. coração batia em compasso de canção feliz e rápida, calma e derretida.
Um jogo de palavras soltas qualquer, um óculos também e a certeza de que queríamos a mesma coisa veio assim, fugaz, dentro de um ritmo sútil e verossímil.
Dei-lhe um beijo na testa, um na bochecha, outro no queixo, leves beijos em toda sua face, ele os recebia em paz e de coração aberto.
"its feels so good" sussurrou.
Alcancei seus lábios e nos beijamos de forma inquieta e terna e quente, durou um instante e foi pra sempre.
Saímos pela cidade apaixonados dentro daquelas horas, brincávamos com todos os transeuntes, todas as verdades ditas e as não ditas, corríamos, andávamos lento, ríamos mais, andávamos mais rápido, atravessávamos onde não se podia, a morte seria impossível dentro de tamanha eloquência dos sentidos.
Cerrei meus olhos e pedi que me guiasse e o fez, braços passados em minha nuca, beijava-me a testa, dava orientações tão claras, sua voz entrava dentro da parte mais doce e suave que há em mim, por todos os cantos, não me deixou cair, nem tropeçar, me guiou pela cidade luz sem que nenhuma luz por mim precisasse ser vista, colocou sem saber aquele verão, em uma fotografia em preto, branco, em filtros frutacor, em monocromático e sépia.
Chegamos em seu apartamento no 16º arrondissement.
E tudo foi amor, calor e saudades.
Calor, amor e saudades
Amor e saudades
Saudades...
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sábado, 21 de setembro de 2013
nosso universo no jardim
posso me lembrar que o sol na holanda apesar de escasso, quando vinha era muito mais belo que qualquer sol no mundo, talvez devido a sua ação renovadora nas pessoas, talvez tamanha era a ansia que todos tinham por ele e como em amor comemoravam sua chegada.
nos dias de sol nós, eu e as meninas, em nosso universo, gostávamos de brincar no jardim, em principal pulando na cama elástica, elas gostavam muito de brincar comigo, porque com meu contrapeso elas conseguiam ir muito mais alto, muito mais.
'vamos jenny, só com você eu chego muito alto'
e lá íamos nós pular e pular, e eu realmente conseguia fazer elas chegarem muito alto, era só alternar nossos pulos, e sempre de mãos dadas, elas não iam se não estivéssemos de mãos bem dadas, as três, e riamos, e riamos, e depois jogávamos nossos corpos inteiros na cama, que iam pulando até sossegar, e elas rolavam por cima de mim e todas riamos felizes, e eu lembro dos raios de sol que iluminavam suas faces rosadas, um sol claro e luminoso, suas faces e seus dentões de crianças sorrindo, o céu azulinho, azulinho, com nuvens cortadas de lado à lado.
às vezes me pediam para fechar os olhos, e me faziam massagem nos pés e nas mãos e nos braços, com água e sabão pra refrescar, levavam muito à serio, depois revezávamos, era a simplicidade mais doce de nossas vidas.
"te amo meninas"
"te amo jenny"
cócegas
abraços
beijos na testa
dessas memórias que são parte de mim
dessas partes de mim que em palavra o amor não cabe.
nos dias de sol nós, eu e as meninas, em nosso universo, gostávamos de brincar no jardim, em principal pulando na cama elástica, elas gostavam muito de brincar comigo, porque com meu contrapeso elas conseguiam ir muito mais alto, muito mais.
'vamos jenny, só com você eu chego muito alto'
e lá íamos nós pular e pular, e eu realmente conseguia fazer elas chegarem muito alto, era só alternar nossos pulos, e sempre de mãos dadas, elas não iam se não estivéssemos de mãos bem dadas, as três, e riamos, e riamos, e depois jogávamos nossos corpos inteiros na cama, que iam pulando até sossegar, e elas rolavam por cima de mim e todas riamos felizes, e eu lembro dos raios de sol que iluminavam suas faces rosadas, um sol claro e luminoso, suas faces e seus dentões de crianças sorrindo, o céu azulinho, azulinho, com nuvens cortadas de lado à lado.
às vezes me pediam para fechar os olhos, e me faziam massagem nos pés e nas mãos e nos braços, com água e sabão pra refrescar, levavam muito à serio, depois revezávamos, era a simplicidade mais doce de nossas vidas.
"te amo meninas"
"te amo jenny"
cócegas
abraços
beijos na testa
dessas memórias que são parte de mim
dessas partes de mim que em palavra o amor não cabe.
sexta-feira, 12 de julho de 2013
where is bjork now?
leia ao som de - Saeglopur Sigur Ros
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Quando cheguei em Reykjavik a emoção, euforia mais um monte de coisas tomaram conta de tudo que posso me lembrar.
Era como chegar na lua ou coisa parecida, cheguei no inicio da madrugada e não tinha mesmo noite, era verdade, o céu estava claro como as seis da tarde e nunca mais escuro que isso. Peguei um ônibus no aeroporto para o centro da cidade que fazia parada nos hostels, o meu era o último, era como 2 da manhã e já estava amanhecendo.
Não fiquei muito no hostel, só uma noite, no dia seguinte fui pra um couch do CS, era um casal, a menina era búlgara e o cara islandes da gema, se assim posso dizer, no primeiro dia dediquei a andar pela cidade, achava graça das lojas de souvenir que exibiam camisetas com dizeres como "where is bjork now?" e "simpathy for de devil" com um desenho de um homem palitinho dando um lenço pra um demônio, também palitinho, sentado em um banquinho chorando e talz. O senso de humor islandês ficava estampado em todo lugar, eu amava, a minha piada favorita, que ouvi de muitos locais era a charadinha "o que fazer se você se perder em uma floresta na Islândia? - fique de pé" - as árvores islandesas são sempre anãs, os vikings cortaram todas antes de perceber que em chão de lava o crescimento de qualquer coisa é muito difícil e demorado, que dó.
Realmente não vi a Bjork, nem o Jonsi, mas por todo canto que me perguntavam o que eu estava fazendo lá eu dizia que era por causa do Sigur Ros, até o dia, em um festival de música em uma cidade litorânea - como todas- um mocinho disse que aquela era a cidade onde Jonsi tinha sua casa de verão e me levou até lá, entrei no jardim e fiquei curiando pela janela, observando cada detalhe da casa do Jonsi, foi bem bonitinho.
Bebendo cerveja Viking (claro) conversando com essa galerinha singular pra burro, era como se ser tão poucos no mundo todo obrigasse as pessoas a serem naturalmente engraçadas, amáveis e eternas na memória, como pra se perpetuar de alguma maneira.
Topa foi uma guria que me levou pra passear pela cidade nos primeiros dias, morava na casa dos pais com a namorada, passamos em sua casa e todos eles jantavam com a namorada conversando super entrosados como se a menina fosse membro da família, o amor entre duas mulheres ficou muito nitidamente natural naquele contexto como sempre deveria em todo lugar do mundo, eu achei tão lindo, alí naquela casinha islandesa já estava acontecendo. Ela me levou pro seu bar favorito na cidade e me inspirou a comer panquecas americanas com bacon e muito syrup em cima, eu nunca me esqueci de nada disso, até hoje faço reproduções desse prato quando possível.
Fiz passeios turísticos dois dias, mas eram caros e detestava fazer tudo com minutos marcados, mas foi com esses passeios que fui ver os geysers e a lagoa azul.
Os geysers- coisa mais absurda desse mundo, você fica lá impaciente vendo aquela água borbulhar, fede pra burro, tipo enxofre e aí pumba, a água explode loucamente pelo ar, muito alto, muito braba, muito linda e te molha e te respinga e você tipo chora.
A lagoa azul- coisa tão surreal, tinha que ficar pelado antes de entrar, era regra na Islândia, antes de entrar em qualquer piscina, banho geral sem nenhuma peça, na lagoa foi assim, era quentinha e tinha um bar no centro, tomei um suco de muitas muitas coisas, grosso e azedo, às vezes a água ficava muito quente, me dava um pouco de medo, e o spa deixava uns baldes com a lama branca extraída do fundo pro povo passar no corpo, e eles realmente passavam, em mim só deu muita coceira.
Sorte os meus hosts me convidaram pra acampar com eles no terceiro dia, acampar na Islândia era surreal porque você ia dormir com muitos muitos agasalhos e sacos de dormir pra às três da manhã, quando o sol já estava bem no alto você começar a semi fritar e sem escuridão total às vezes era difícil pegar no sono, bem dificil na real!
Acampando percorremos o lado sul da ilha, vimos quedas d'água cheias de beleza, vales, centenas de ovelhas, inúmeros arco-iris, cidadezinhas, festivais, praias de areia negra e tanto, tanto espaço, eu ouvia Sigur Ros o dia inteiro, e caminhava, e agradecia, e chorava e comia, que delícia era a comida de acampamento, e agradecia mais um pouco, e chorava de emoção de novo.
Ultimo dia fizemos uma trilha em busca do rio que corria quente, falávamos dele desde o primeiro dia, e a caminhada foi longa mas tão gratificante, a vista era de tirar o folego e a água era realmente tão quentinha, tão cristalina, tão incrível e acolhedora, sabe aquela expressão "agora eu posso morrer" então.
Foi difícil ver a Islândia sumir quando a aeronave já alcançava as nuvens.
Foram oito dias que foram anos dentro de mim, eu entendi tudo, eu entendi tudo e parecia abraçar o mundo, sinto saudade muitas vezes, a saudade misturada com agradecimento por ter conseguido, é um dos sonhos realizados mais doces que tive, trabalhei duro, pedi ajuda, guardei todo centavo pra aquela viagem e nossa, foi o dinheiro mais bem gasto de toda minha vida.
A Islândia é minha, aqui dentro, para o todo sempre até o fim, e desculpe-me, nunca vai caber realmente em palavra alguma.
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Quando cheguei em Reykjavik a emoção, euforia mais um monte de coisas tomaram conta de tudo que posso me lembrar.
Era como chegar na lua ou coisa parecida, cheguei no inicio da madrugada e não tinha mesmo noite, era verdade, o céu estava claro como as seis da tarde e nunca mais escuro que isso. Peguei um ônibus no aeroporto para o centro da cidade que fazia parada nos hostels, o meu era o último, era como 2 da manhã e já estava amanhecendo.
Não fiquei muito no hostel, só uma noite, no dia seguinte fui pra um couch do CS, era um casal, a menina era búlgara e o cara islandes da gema, se assim posso dizer, no primeiro dia dediquei a andar pela cidade, achava graça das lojas de souvenir que exibiam camisetas com dizeres como "where is bjork now?" e "simpathy for de devil" com um desenho de um homem palitinho dando um lenço pra um demônio, também palitinho, sentado em um banquinho chorando e talz. O senso de humor islandês ficava estampado em todo lugar, eu amava, a minha piada favorita, que ouvi de muitos locais era a charadinha "o que fazer se você se perder em uma floresta na Islândia? - fique de pé" - as árvores islandesas são sempre anãs, os vikings cortaram todas antes de perceber que em chão de lava o crescimento de qualquer coisa é muito difícil e demorado, que dó.
Realmente não vi a Bjork, nem o Jonsi, mas por todo canto que me perguntavam o que eu estava fazendo lá eu dizia que era por causa do Sigur Ros, até o dia, em um festival de música em uma cidade litorânea - como todas- um mocinho disse que aquela era a cidade onde Jonsi tinha sua casa de verão e me levou até lá, entrei no jardim e fiquei curiando pela janela, observando cada detalhe da casa do Jonsi, foi bem bonitinho.
Bebendo cerveja Viking (claro) conversando com essa galerinha singular pra burro, era como se ser tão poucos no mundo todo obrigasse as pessoas a serem naturalmente engraçadas, amáveis e eternas na memória, como pra se perpetuar de alguma maneira.
Topa foi uma guria que me levou pra passear pela cidade nos primeiros dias, morava na casa dos pais com a namorada, passamos em sua casa e todos eles jantavam com a namorada conversando super entrosados como se a menina fosse membro da família, o amor entre duas mulheres ficou muito nitidamente natural naquele contexto como sempre deveria em todo lugar do mundo, eu achei tão lindo, alí naquela casinha islandesa já estava acontecendo. Ela me levou pro seu bar favorito na cidade e me inspirou a comer panquecas americanas com bacon e muito syrup em cima, eu nunca me esqueci de nada disso, até hoje faço reproduções desse prato quando possível.
Fiz passeios turísticos dois dias, mas eram caros e detestava fazer tudo com minutos marcados, mas foi com esses passeios que fui ver os geysers e a lagoa azul.
Os geysers- coisa mais absurda desse mundo, você fica lá impaciente vendo aquela água borbulhar, fede pra burro, tipo enxofre e aí pumba, a água explode loucamente pelo ar, muito alto, muito braba, muito linda e te molha e te respinga e você tipo chora.
A lagoa azul- coisa tão surreal, tinha que ficar pelado antes de entrar, era regra na Islândia, antes de entrar em qualquer piscina, banho geral sem nenhuma peça, na lagoa foi assim, era quentinha e tinha um bar no centro, tomei um suco de muitas muitas coisas, grosso e azedo, às vezes a água ficava muito quente, me dava um pouco de medo, e o spa deixava uns baldes com a lama branca extraída do fundo pro povo passar no corpo, e eles realmente passavam, em mim só deu muita coceira.
Sorte os meus hosts me convidaram pra acampar com eles no terceiro dia, acampar na Islândia era surreal porque você ia dormir com muitos muitos agasalhos e sacos de dormir pra às três da manhã, quando o sol já estava bem no alto você começar a semi fritar e sem escuridão total às vezes era difícil pegar no sono, bem dificil na real!
Acampando percorremos o lado sul da ilha, vimos quedas d'água cheias de beleza, vales, centenas de ovelhas, inúmeros arco-iris, cidadezinhas, festivais, praias de areia negra e tanto, tanto espaço, eu ouvia Sigur Ros o dia inteiro, e caminhava, e agradecia, e chorava e comia, que delícia era a comida de acampamento, e agradecia mais um pouco, e chorava de emoção de novo.
Ultimo dia fizemos uma trilha em busca do rio que corria quente, falávamos dele desde o primeiro dia, e a caminhada foi longa mas tão gratificante, a vista era de tirar o folego e a água era realmente tão quentinha, tão cristalina, tão incrível e acolhedora, sabe aquela expressão "agora eu posso morrer" então.
Foi difícil ver a Islândia sumir quando a aeronave já alcançava as nuvens.
Foram oito dias que foram anos dentro de mim, eu entendi tudo, eu entendi tudo e parecia abraçar o mundo, sinto saudade muitas vezes, a saudade misturada com agradecimento por ter conseguido, é um dos sonhos realizados mais doces que tive, trabalhei duro, pedi ajuda, guardei todo centavo pra aquela viagem e nossa, foi o dinheiro mais bem gasto de toda minha vida.
A Islândia é minha, aqui dentro, para o todo sempre até o fim, e desculpe-me, nunca vai caber realmente em palavra alguma.
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| Inní Mér Syngur Vitleysingur |
quinta-feira, 6 de junho de 2013
Dominique
Chegamos na estação de trem de Skopje por volta das dez da manhã.
O taxista não conseguia encontrar o endereço, pediu pra gente o telefone de nossa anfitriã e ele mesmo ligou pra ela com a intenção de pedir referencias, achei inusitado porem ótimo, já estava tão apaixonada pela Macedônia nesse instante aí.
Eles se comunicavam em macedônio, daria um rim pra entender qualquer palavra que fosse daquela idioma que me instigava a audição, e então chegamos, Dominique nos esperava na porta de seu prédio e foi amor a primeira vista.
Uma senhora de 65 anos, de cabelos curto arroxeados, amiga de nosso amigo querido "Quem é amigo de Antoine é mais que bem vindo em minha casa" disse ela a sorrir e assim foi.
O prédio era cinza, seu apartamento o lugar mais colorido do mundo.
O pai havia sido um jornalista militante politico que todos os dias fazia um desenho aquarela de sua esposa e essas aquarelas estavam espalhadas pelo apartamento.
Eu e minha amiga ficamos hospedadas em um quarto laranja com fotos de abobaras e uma vista para a doce Skopje, era tanto amor.
Dominique sabia tudo sobre a cidade, francesa de Dijon morava na capital macedônia já há muitos pares de anos e conhecia todos artistas e políticos da região, nos levou em todo canto, do lado árabe ao lado ocidental e nos apresentou pessoas incríveis, e restaurantes e historias tantas, de terremotos à danças tradicionais do povo roma.
Quando falamos de amores incomuns , me levou em um corredor e me mostrou a foto de uma linda moça de cabelos cacheados "foi minha namorada por três anos, um dia partiu"
Dominique nos contava historias de tantos amores na realidade, tinha dois filhos mestiços de dois pais japoneses diferentes, cada um deles vivendo suas vidas em lugares distintos do mundo.
Nos levou no bairro roma, Chutka, onde casamentos tradicionais coloriam as ruas, nunca teríamos conseguido ir lá sem ela e agradeço muito.
Ah quantas histórias incríveis me contava Do, podia escrever um livro todo só com elas.
Um dia bebemos Rakija, a bebida forte dos povos balcãs, e embriagadas revelamos paixões em comum e segredos cheios de sonhos.
Dominique reclamava da solidão.
E eu nunca deixei de querer voltar.
Seus olhos se encheram de lágrimas quando partimos.
E os meus também.
O taxista não conseguia encontrar o endereço, pediu pra gente o telefone de nossa anfitriã e ele mesmo ligou pra ela com a intenção de pedir referencias, achei inusitado porem ótimo, já estava tão apaixonada pela Macedônia nesse instante aí.
Eles se comunicavam em macedônio, daria um rim pra entender qualquer palavra que fosse daquela idioma que me instigava a audição, e então chegamos, Dominique nos esperava na porta de seu prédio e foi amor a primeira vista.
Uma senhora de 65 anos, de cabelos curto arroxeados, amiga de nosso amigo querido "Quem é amigo de Antoine é mais que bem vindo em minha casa" disse ela a sorrir e assim foi.
O prédio era cinza, seu apartamento o lugar mais colorido do mundo.
O pai havia sido um jornalista militante politico que todos os dias fazia um desenho aquarela de sua esposa e essas aquarelas estavam espalhadas pelo apartamento.
Eu e minha amiga ficamos hospedadas em um quarto laranja com fotos de abobaras e uma vista para a doce Skopje, era tanto amor.
Dominique sabia tudo sobre a cidade, francesa de Dijon morava na capital macedônia já há muitos pares de anos e conhecia todos artistas e políticos da região, nos levou em todo canto, do lado árabe ao lado ocidental e nos apresentou pessoas incríveis, e restaurantes e historias tantas, de terremotos à danças tradicionais do povo roma.
Quando falamos de amores incomuns , me levou em um corredor e me mostrou a foto de uma linda moça de cabelos cacheados "foi minha namorada por três anos, um dia partiu"
Dominique nos contava historias de tantos amores na realidade, tinha dois filhos mestiços de dois pais japoneses diferentes, cada um deles vivendo suas vidas em lugares distintos do mundo.
Nos levou no bairro roma, Chutka, onde casamentos tradicionais coloriam as ruas, nunca teríamos conseguido ir lá sem ela e agradeço muito.
Ah quantas histórias incríveis me contava Do, podia escrever um livro todo só com elas.
Um dia bebemos Rakija, a bebida forte dos povos balcãs, e embriagadas revelamos paixões em comum e segredos cheios de sonhos.
Dominique reclamava da solidão.
E eu nunca deixei de querer voltar.
Seus olhos se encheram de lágrimas quando partimos.
E os meus também.
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| Ela. |
sexta-feira, 26 de abril de 2013
feliz aniversário uma única vez.
Uma semana antes do meu aniversário, na hora do café da manhã, Amber me perguntou:
- Jenny, você não fica triste de passar seu aniversário longe de sua família?
eu respondi sem pensar duas vezes
- Até fico, mas eu quero partilhar isso com vocês também, será apenas uma vez e será muito incrível, eu sei.
Como de costume em aniversários holandeses, a família te acorda no café da manhã, eu acordei cedo só pra tomar banho e me arrumar e fui deitar fingindo que não sabia de nada, escutei as meninas correndo pela casa, Suzanne também e eu fingindo dormir, lembro que um cara veio trocar a lampada da cozinha e nunca mais parou de falar e meu coração já apertadinho, comecei a ter medo que tivessem me esquecido, só que claro que logicamente NÃO!
Acordaram-me cantando a doce canção de aniversário holandesa com croissants e geleia e muitos presentes, Hanna me deu minha sobremesa favorita, as famosas Soesje, Amber me deu um caderno porque sabia que eu amava escrever o tempo todo, e Mark e Suzanne, a Mark e Suzanne me deram uma Nikon D40 e eu tremia, eu chorava, eu sei lá o que, queria abraça-los até esmaga-los mas acho que eles achariam estranho, então não o fiz.
Durante o dia Kelsey, minha melhor amiga daquele ano, a canadense mais surrealmente linda do cosmos, veio em sua bike amarela me trazer presentes, cds, escritos, postais e doces, muitas mensagens vieram do Brasil também, eu me enchia de universo.
Anoite a família me levou pro Rodizio, o restaurante brasileiro que ficava na praia de Scheveningen, eu achava o nome bem bobo no entanto, mas fui toda feliz da vida, já fazia 11 meses que não comia comida brasileira e chegando lá corri pro buffet e saí colocando tudo no prato, farofa, feijoada, pão de queijo, sim pão de queijo, quando olhei pra trás vi que os holandeses me copiavam e eu dizia "é assim mesmo" eles não faziam ideia de como funcionava essa coisa de se auto servir, coisa nada comum na Holanda, e foram me copiando. Fiquei frustrada porque todos os funcionários do restaurante eram portugueses ou cabo-verdianos, não encontrei um único brasileiro pra contar a história. Tinha um telão enorme passando lambada, os garçons não paravam de trazer carne, Mark tomou uma caipirinha e ficou bebadinho, o restaurante era uma farra resumindo, muita informação, eu queria rir não sei, os holandeses não sabiam pra onde olhar, o que sentir, eles sempre em ambientes extremamente organizados, de repente alí naquele caos cheio de delícias, e era tanta bunda naquele telão que eu preferi nem dizer nada.
Aí veio o ápice, parou tudo, colocaram uma Bete Carvalho estourando os tímpanos e três meninas semi nuas, com pena, tanga e tudo o que tem direito, desceram pro salão e começaram a sambar loucamente em cima dos clientes, levando ao delírios os pais de família e encantando quem quer que fosse, chamaram Amber pra dançar e ela foi, eu fui junto, as dançarinas eram de cabo-verde também, mas sambavam tão lindo, Suzanne tinha a boca aberta, nem conseguia assimilar.
Voltamos pra casa todos cheio de energia, Mark bêbado de caipirinha, foi levado pra cama guiado pelas filhas, eu fui dormir cheia de amor, alegria, agradecimento e saudade.
Dia seguinte, me deixaram um bilhete no balcão da cozinha
"Jenny, muito obrigada por ter trazido o Brasil pras nossas vidas"
Mark, Suzanne, Hanna e Amber
e eu chorei.
- Jenny, você não fica triste de passar seu aniversário longe de sua família?
eu respondi sem pensar duas vezes
- Até fico, mas eu quero partilhar isso com vocês também, será apenas uma vez e será muito incrível, eu sei.
Como de costume em aniversários holandeses, a família te acorda no café da manhã, eu acordei cedo só pra tomar banho e me arrumar e fui deitar fingindo que não sabia de nada, escutei as meninas correndo pela casa, Suzanne também e eu fingindo dormir, lembro que um cara veio trocar a lampada da cozinha e nunca mais parou de falar e meu coração já apertadinho, comecei a ter medo que tivessem me esquecido, só que claro que logicamente NÃO!
Acordaram-me cantando a doce canção de aniversário holandesa com croissants e geleia e muitos presentes, Hanna me deu minha sobremesa favorita, as famosas Soesje, Amber me deu um caderno porque sabia que eu amava escrever o tempo todo, e Mark e Suzanne, a Mark e Suzanne me deram uma Nikon D40 e eu tremia, eu chorava, eu sei lá o que, queria abraça-los até esmaga-los mas acho que eles achariam estranho, então não o fiz.
Durante o dia Kelsey, minha melhor amiga daquele ano, a canadense mais surrealmente linda do cosmos, veio em sua bike amarela me trazer presentes, cds, escritos, postais e doces, muitas mensagens vieram do Brasil também, eu me enchia de universo.
Anoite a família me levou pro Rodizio, o restaurante brasileiro que ficava na praia de Scheveningen, eu achava o nome bem bobo no entanto, mas fui toda feliz da vida, já fazia 11 meses que não comia comida brasileira e chegando lá corri pro buffet e saí colocando tudo no prato, farofa, feijoada, pão de queijo, sim pão de queijo, quando olhei pra trás vi que os holandeses me copiavam e eu dizia "é assim mesmo" eles não faziam ideia de como funcionava essa coisa de se auto servir, coisa nada comum na Holanda, e foram me copiando. Fiquei frustrada porque todos os funcionários do restaurante eram portugueses ou cabo-verdianos, não encontrei um único brasileiro pra contar a história. Tinha um telão enorme passando lambada, os garçons não paravam de trazer carne, Mark tomou uma caipirinha e ficou bebadinho, o restaurante era uma farra resumindo, muita informação, eu queria rir não sei, os holandeses não sabiam pra onde olhar, o que sentir, eles sempre em ambientes extremamente organizados, de repente alí naquele caos cheio de delícias, e era tanta bunda naquele telão que eu preferi nem dizer nada.
Aí veio o ápice, parou tudo, colocaram uma Bete Carvalho estourando os tímpanos e três meninas semi nuas, com pena, tanga e tudo o que tem direito, desceram pro salão e começaram a sambar loucamente em cima dos clientes, levando ao delírios os pais de família e encantando quem quer que fosse, chamaram Amber pra dançar e ela foi, eu fui junto, as dançarinas eram de cabo-verde também, mas sambavam tão lindo, Suzanne tinha a boca aberta, nem conseguia assimilar.
Voltamos pra casa todos cheio de energia, Mark bêbado de caipirinha, foi levado pra cama guiado pelas filhas, eu fui dormir cheia de amor, alegria, agradecimento e saudade.
Dia seguinte, me deixaram um bilhete no balcão da cozinha
"Jenny, muito obrigada por ter trazido o Brasil pras nossas vidas"
Mark, Suzanne, Hanna e Amber
e eu chorei.
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| Amber e eu |
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| As dançarinas |
sábado, 23 de março de 2013
ensaios sobre a economia
Economizar, essa é a palavra de ordem de toda e qualquer au pair que se preze.
Eu fiz o mesmo, todas fizemos e quem não fez está mentindo.
Fiz trabalhos ridículos para uma grana extra, como preencher buracos com areia e não me peçam pra explicar, nas compras da família sempre incluía itens para minha pessoa, nas viagens os lanches de rua mais econômicos, levava lanche da casa grande, só andava de trem em horário fora de pico que tinha desconto, me hospedava na casa de qualquer pessoa, amigo de amigo, tio do amigo do primo do cachorro, ia de bike pra todo canto, pegava carona de uma cidade à outra com um bando de gente desconhecida, cinema era luxo, alugava filmes na biblioteca, no verão era só um euro, sucesso!
Roupas novas só na Zeeman a loja mais barata do mundo, jantava no restaurante da Hema que era quase de graça, no Burger King fazia questão do menu de 1.99 que eles nem divulgavam, sim, eu pulei catraca e dei de joão sem braço em trens e metros em diversas cidades e não me envergonho disso, sorvete de sorveteria só se estivesse com as crianças e logo com a carteira da família, caso contrário só no mercado, andava com colherinhas plasticas na bolsa e só comprava sobremesa no Albert Hein e afins. Roubava lenços de papel da casa, museu só os que aceitavam o cartão do museu, dispensava passeios pra passar o dia com a família onde não gastava com nada, o que era bizarro, pois apesar da pobreza também comia nos melhores restaurantes e bebia vinho todas as noites e morava em uma casa toda rica e desfrutava muito desses pequenos luxos, talvez mais que os próprios donos que só trabalhavam o dia inteiro.
E apesar da extrema pobreza não me importava em nada, sempre dava um jeito, e fiz tudo que o tempo me deixou fazer, e acho que não aproveitei em menos, a pobreza me levava à situações cômicas e pessoas incríveis que certamente não teria conhecido em restaurantes e ou hotéis de luxo.
Eu ganhei muito mais coisa, muitas mais, que dinheiro no mundo inteiro não compraria nem se ele quisesse. Sorrisos, afagos, piqueniques, viagens de bicicleta, gente inacreditável de incrível pelas estradas, histórias cheias de fascínio no antes de dormir, amores, risos, rostos, faces e lágrimas de saudades com promessa de pra sempre.
o coração será sempre gratuito
Eu fiz o mesmo, todas fizemos e quem não fez está mentindo.
Fiz trabalhos ridículos para uma grana extra, como preencher buracos com areia e não me peçam pra explicar, nas compras da família sempre incluía itens para minha pessoa, nas viagens os lanches de rua mais econômicos, levava lanche da casa grande, só andava de trem em horário fora de pico que tinha desconto, me hospedava na casa de qualquer pessoa, amigo de amigo, tio do amigo do primo do cachorro, ia de bike pra todo canto, pegava carona de uma cidade à outra com um bando de gente desconhecida, cinema era luxo, alugava filmes na biblioteca, no verão era só um euro, sucesso!
Roupas novas só na Zeeman a loja mais barata do mundo, jantava no restaurante da Hema que era quase de graça, no Burger King fazia questão do menu de 1.99 que eles nem divulgavam, sim, eu pulei catraca e dei de joão sem braço em trens e metros em diversas cidades e não me envergonho disso, sorvete de sorveteria só se estivesse com as crianças e logo com a carteira da família, caso contrário só no mercado, andava com colherinhas plasticas na bolsa e só comprava sobremesa no Albert Hein e afins. Roubava lenços de papel da casa, museu só os que aceitavam o cartão do museu, dispensava passeios pra passar o dia com a família onde não gastava com nada, o que era bizarro, pois apesar da pobreza também comia nos melhores restaurantes e bebia vinho todas as noites e morava em uma casa toda rica e desfrutava muito desses pequenos luxos, talvez mais que os próprios donos que só trabalhavam o dia inteiro.
E apesar da extrema pobreza não me importava em nada, sempre dava um jeito, e fiz tudo que o tempo me deixou fazer, e acho que não aproveitei em menos, a pobreza me levava à situações cômicas e pessoas incríveis que certamente não teria conhecido em restaurantes e ou hotéis de luxo.
Eu ganhei muito mais coisa, muitas mais, que dinheiro no mundo inteiro não compraria nem se ele quisesse. Sorrisos, afagos, piqueniques, viagens de bicicleta, gente inacreditável de incrível pelas estradas, histórias cheias de fascínio no antes de dormir, amores, risos, rostos, faces e lágrimas de saudades com promessa de pra sempre.
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