Quando se está fora de casa, viajando por onde for, você certeza vai conhecer muita gente, é uma rotatividade tremenda, e com certeza vai responder as mesmas perguntas muitas e muitas e muitas vezes : da onde você é, o que faz, o que faz aqui, gosta daqui, e bla bla bla. E você também, evidentemente irá fazer as mesmas perguntas, pra socializar, pra puxar aquele assunto inicial, dar aquele pontapé na sua vida social longe de casa que às vezes pode ser bem complicada, e se não der certo, você pode terminar sozinha e amargurada no seu quarto e se suicidar, ao menos acho que esse é o maior medo das hostfamilies que de inicio tentam fazer você socializar com qualquer ser vivo com habilidades de comunicação, mesmo que básicas, que mora na sua rua ou passa na frente da sua casa. rs
Durante as perguntas algumas pessoas me entediavam enormemente, tudo que elas faziam era monossilábico e sem intensidade, porem outras pessoas me fascinavam ou simplesmente me deixavam muito pensativas, como aquele menino naquela festa estranha com gente esquisita no meu primeiro mês, que enquanto dançávamos salsa me disse que trabalhava com crianças com diferentes tipos de deficiências mentais e concluiu com "eu gosto, mas às vezes elas me batem", ainda dançando salsa.
Tiveram também o moço nas montanhas alsacianas que ensinava presidiários a cultivar seus próprios legumes, a galera de entrega com bicicletas rápidas (o fietsexpress, fiets= bike em holandês), o amigo que trabalhava fotografando turistas em barcos pelo Rio Sena, saindo da Torre Eiffel, a amiga que tentava montar sua própria companhia de teatro no coração de Marselha, o secretário do partido comunista de Luxemburgo (oi, comunistas em Luxemburgo, só moram dez pessoas em Luxemburgo quase, imagine comunistas rs), a menina que fazia chapéus, o cineasta parisiense, o organizador de festas hypes de Bruxelas, a cientista afro com cabelo de Amy Winehouse em Berlim vinda do Bronx que falava "hey dude what's up" e também tinham aquelas pessoas que não faziam nada, apenas esperavam o bonde, porque na Europa tem pensão pra tudo quanto é coisa, depressão, estudo, falta de vergonha na cara, e o povo ainda reclama, ficava de besta.
A descrição do meu trabalho também não era a mais comum do mundo "sou paga para andar de bicicleta, tomar sorvete e pular na cama elastica, separar brigas e cantar pra dormir, basicamente isso"
Apesar de alguns contra-tempos na vida, é sempre bom ser pago pra ser feliz.
ao voltar daquele ano um amigo que ficou lá me escreveu "Para não esquecer, lembre-se todos os dias, nem que seja um pouco, de algo que viveu aqui." Criei o 365 então.
quarta-feira, 11 de abril de 2012
terça-feira, 3 de abril de 2012
.Bruxelas mon amour.
Leia ao som de Ne me quitte Pas - Jacques Brel
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Bruxelas, não sabia o que esperar de lá exatamente, sabia que Cortazar, o escritor portenho, gostava muito, mas imaginava como uma Paris menorzita, ia em época de páscoa, minha primeira viagem fora da Holanda desde o início daquela viagem, dois dias antes de embarcar ainda nem tinha lugar pra ficar, e assim de repente me apareceram dois, decidi dividir.
Um casal flamenco e outro francófono, os dois primeiros dias foram dedicados aos flamencos, ela era compositora e ele recém chegado na cidade, organizava festas alternativas e tinha bastante tempo pra me levar para passeios peculiares.
Quando desci na estação de metro do bairro deles foi uma loucura, era um bairro de concentração árabe e eu me senti chegando no oriente médio e não em uma cidade tão perto de Haia, era uma explosão de idiomas e sensações, os dois me receberam muito bem, moravam em uma ruazinha simpática no centro em um apartamento mais simpático ainda, Seb me levou para um passeio e logo nos primeiros passos eu fui me apaixonando por Bruxelas, com suas ruas com cheiro de chocolate, sebos e lojas culturais, batatas fritas em toda esquina e os saudosos waffles quentes com nutella derretendo em cima, ao chegar na Praça Central, elegi minha praça favorita em todo mundo, onde o som era diferente de qualquer lugar e onde Karl Marx tinha escrito partes do manifesto comunista, e som do acordeão em toda esquina, as ruas eram pra dançar.
Na minha primeira noite um jantar de família do casal flamenco, o holandês belga soava tão mais agradável que o holandês da Holanda, todos interessados pela minha presença, era uma família tão fácil de lidar, eu nunca me esqueço e a lasanha estava ótima, diga-se de passagem.
Em meus passeios Bruxelas se desenrolava como minha cidade favorita do lado oeste da Europa, existia um contraste entre o belo e o moderno, e graffites e um pouco de caos pro meu coração, eu fui na cinemateca quase todos os dias, podia ficar alí horas vendo cenas de Truffaut e Antoine Doinel quando criança, a mistura de idiomas na cidade me fascinava, e seus becos curiosos, Frida, a Kahlo também esteve lá, em uma exposição genialíssima, intimista onde me explodi de sentimentos. Teve também um mercado de pulgas mais inusitado, onde se vendiam até moedas do império romano e fotos de família já esquecidas no tempo, uma festa de nostalgia alheia. Na volta um açougue brasileiro, apinhado de conterrâneos e eu fiz Seb e Vanessa comerem croquetes feitos por mãos da terrinha. Quando me despedi deles pra ir pra outra casa, foi como me despedir de amigos próximos, tanto tínhamos conversado, especialmente antes de dormir, Vanessa cantou uma canção linda em seu violão pra mim e eu fiquei com aquele eterno desejo de um dia poder retribuir.
O casal francófono trabalhava muito, mas os dois eram as coisas mais fofas desse mundo e do próximo também, moravam em uma casarão mais afastado do centro com tantos andares e foram tão hospitaleiros que dava até vontade de acreditar na humanidade, o quintal era tão verde, tinha uma grama tão lisinha, me lembrava do Petter Rabbit, eu ficava olhando pela janela do quarto e imaginando elfos e anões de gorro correndo pelos lados, dormia sorrindo. Meu último dia eu fui ver o museu do Brel, no centro e estava rolando uma exposição chamada "Eu amo os Belgas", pois é Brel, naquele ponto eu também já estava apaixonada por eles também. Querido Brel.
Claro que na volta pra Holanda eu me perdi no metro e assim perdi meu ônibus, aprendi que a Eurolines sempre atrasa, mas quando você está atrasado ela sai mais do que no horário, tentei correr atrás do ônibus mas não deu certo, claro, voltei de trem então, mas em realidade podia ter ficado uns dias à mais, uns meses talvez.
Definitivamente: Bruxelas mon amour!
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Bruxelas, não sabia o que esperar de lá exatamente, sabia que Cortazar, o escritor portenho, gostava muito, mas imaginava como uma Paris menorzita, ia em época de páscoa, minha primeira viagem fora da Holanda desde o início daquela viagem, dois dias antes de embarcar ainda nem tinha lugar pra ficar, e assim de repente me apareceram dois, decidi dividir.
Um casal flamenco e outro francófono, os dois primeiros dias foram dedicados aos flamencos, ela era compositora e ele recém chegado na cidade, organizava festas alternativas e tinha bastante tempo pra me levar para passeios peculiares.
Quando desci na estação de metro do bairro deles foi uma loucura, era um bairro de concentração árabe e eu me senti chegando no oriente médio e não em uma cidade tão perto de Haia, era uma explosão de idiomas e sensações, os dois me receberam muito bem, moravam em uma ruazinha simpática no centro em um apartamento mais simpático ainda, Seb me levou para um passeio e logo nos primeiros passos eu fui me apaixonando por Bruxelas, com suas ruas com cheiro de chocolate, sebos e lojas culturais, batatas fritas em toda esquina e os saudosos waffles quentes com nutella derretendo em cima, ao chegar na Praça Central, elegi minha praça favorita em todo mundo, onde o som era diferente de qualquer lugar e onde Karl Marx tinha escrito partes do manifesto comunista, e som do acordeão em toda esquina, as ruas eram pra dançar.
Na minha primeira noite um jantar de família do casal flamenco, o holandês belga soava tão mais agradável que o holandês da Holanda, todos interessados pela minha presença, era uma família tão fácil de lidar, eu nunca me esqueço e a lasanha estava ótima, diga-se de passagem.
Em meus passeios Bruxelas se desenrolava como minha cidade favorita do lado oeste da Europa, existia um contraste entre o belo e o moderno, e graffites e um pouco de caos pro meu coração, eu fui na cinemateca quase todos os dias, podia ficar alí horas vendo cenas de Truffaut e Antoine Doinel quando criança, a mistura de idiomas na cidade me fascinava, e seus becos curiosos, Frida, a Kahlo também esteve lá, em uma exposição genialíssima, intimista onde me explodi de sentimentos. Teve também um mercado de pulgas mais inusitado, onde se vendiam até moedas do império romano e fotos de família já esquecidas no tempo, uma festa de nostalgia alheia. Na volta um açougue brasileiro, apinhado de conterrâneos e eu fiz Seb e Vanessa comerem croquetes feitos por mãos da terrinha. Quando me despedi deles pra ir pra outra casa, foi como me despedir de amigos próximos, tanto tínhamos conversado, especialmente antes de dormir, Vanessa cantou uma canção linda em seu violão pra mim e eu fiquei com aquele eterno desejo de um dia poder retribuir.
O casal francófono trabalhava muito, mas os dois eram as coisas mais fofas desse mundo e do próximo também, moravam em uma casarão mais afastado do centro com tantos andares e foram tão hospitaleiros que dava até vontade de acreditar na humanidade, o quintal era tão verde, tinha uma grama tão lisinha, me lembrava do Petter Rabbit, eu ficava olhando pela janela do quarto e imaginando elfos e anões de gorro correndo pelos lados, dormia sorrindo. Meu último dia eu fui ver o museu do Brel, no centro e estava rolando uma exposição chamada "Eu amo os Belgas", pois é Brel, naquele ponto eu também já estava apaixonada por eles também. Querido Brel.
Claro que na volta pra Holanda eu me perdi no metro e assim perdi meu ônibus, aprendi que a Eurolines sempre atrasa, mas quando você está atrasado ela sai mais do que no horário, tentei correr atrás do ônibus mas não deu certo, claro, voltei de trem então, mas em realidade podia ter ficado uns dias à mais, uns meses talvez.
Definitivamente: Bruxelas mon amour!
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| Grande Place de Bruxelas |
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| O mercado de Pulgas |
quinta-feira, 22 de março de 2012
.o mundo dela.
Leia ao som de - The food is still hot - Karen O and the Kids
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A menina mais nova tinha um mundo, o quarto dela era um mundo, paredes coloridas com um papel de parede mágico, tantas coisas e detalhes e cores, era um dos lugares mais coloridos da Holanda e portanto eu me sentia muito bem naquele mundo, o da irmã era bem colorido também, porem esta não passava muito tempo lá e nem me convidava a passar tempo com ela com a mesma frequência que a mais nova fazia.
Quantas tardes passamos ali desenhando de tudo, ouvindo música, principalmente a do gorila alemão com oculos de sol, fazendo adesivos com a maquina de adesivos que dei pra ela de aniversario, fazendo cosquinhas, muitas delas, cabaninhas e cortes e colagens e de vez em quando, uma arrumação fajuta, pra fazer a mãe dela feliz. Ela geralmente sentava no meu colo pra desenhar, e eu ficava lá junto, sentindo o cheirinho doce de seus cabelos louros. Eu nem sou uma desenhista, faço bonecos palitos, mas ela me fazia sentir o máximo porque amava tudo que eu fazia, achava tudo incrível e seguia meu modelo logo em seguida, eu gostava de subverter as coisas, inverter cores pra incitar o lado critico dela e ela ia junto, desenhando pros lados contrários, criando uma liberdade no papel, e lá fora o dia holandês ia se esvaindo, às vezes com sol, às vezes com chuva, neve tambem, e o canal ia passando calmo, ou congelado, e eu continuava a sentir o cheiro doce de seus cabelos por todo ano, e a paz invadia meu coração todas às vezes, podia congelar aqueles momentos pra poder voltar toda vez que quisesse.
Claro também tínhamos conflitos no mundo dela, como quando ela não queria se vestir pra ir pro ballet, ou pro hockey, ou não queria deitar, ou não queria dormir de tarde quando estava doente, e os pais queriam que ela dormisse, mas tudo que ela sabia fazer era me chamar a cada cinco minutos e eu não conseguia nem ir ao banheiro direito, às vezes eu me pegava sendo a louca mais estressada das loucas pra fazer ela se vestir pro treino de hockey que assim como eu ela detestava, gritava com ela, e aí ela começava a se virar toda na cama colocando os pés pra cima e eu me matava pra tentar enfiar a calça de qualquer jeito e no fim a gente sempre acabava rindo de qualquer coisa. Como aquela menina sabia me fazer rir, ela tinha esse poder sobre meu riso que era incrível.
Às vezes me via cansada da dependencia constante dela, mas hoje, exatamente agora eu daria tudo pra ouvir ela me chamando pra brincarmos em seu mundo colorido de novo, alongando os fonemas finais do meu nome, com seus dentinhos separados, se agarrando em minha cintura, colocando seus pés sob os meus enquanto cantavamos "I'm singing in the rain" :ó)
"I love you so so so much"
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A menina mais nova tinha um mundo, o quarto dela era um mundo, paredes coloridas com um papel de parede mágico, tantas coisas e detalhes e cores, era um dos lugares mais coloridos da Holanda e portanto eu me sentia muito bem naquele mundo, o da irmã era bem colorido também, porem esta não passava muito tempo lá e nem me convidava a passar tempo com ela com a mesma frequência que a mais nova fazia.
Quantas tardes passamos ali desenhando de tudo, ouvindo música, principalmente a do gorila alemão com oculos de sol, fazendo adesivos com a maquina de adesivos que dei pra ela de aniversario, fazendo cosquinhas, muitas delas, cabaninhas e cortes e colagens e de vez em quando, uma arrumação fajuta, pra fazer a mãe dela feliz. Ela geralmente sentava no meu colo pra desenhar, e eu ficava lá junto, sentindo o cheirinho doce de seus cabelos louros. Eu nem sou uma desenhista, faço bonecos palitos, mas ela me fazia sentir o máximo porque amava tudo que eu fazia, achava tudo incrível e seguia meu modelo logo em seguida, eu gostava de subverter as coisas, inverter cores pra incitar o lado critico dela e ela ia junto, desenhando pros lados contrários, criando uma liberdade no papel, e lá fora o dia holandês ia se esvaindo, às vezes com sol, às vezes com chuva, neve tambem, e o canal ia passando calmo, ou congelado, e eu continuava a sentir o cheiro doce de seus cabelos por todo ano, e a paz invadia meu coração todas às vezes, podia congelar aqueles momentos pra poder voltar toda vez que quisesse.
Claro também tínhamos conflitos no mundo dela, como quando ela não queria se vestir pra ir pro ballet, ou pro hockey, ou não queria deitar, ou não queria dormir de tarde quando estava doente, e os pais queriam que ela dormisse, mas tudo que ela sabia fazer era me chamar a cada cinco minutos e eu não conseguia nem ir ao banheiro direito, às vezes eu me pegava sendo a louca mais estressada das loucas pra fazer ela se vestir pro treino de hockey que assim como eu ela detestava, gritava com ela, e aí ela começava a se virar toda na cama colocando os pés pra cima e eu me matava pra tentar enfiar a calça de qualquer jeito e no fim a gente sempre acabava rindo de qualquer coisa. Como aquela menina sabia me fazer rir, ela tinha esse poder sobre meu riso que era incrível.
Às vezes me via cansada da dependencia constante dela, mas hoje, exatamente agora eu daria tudo pra ouvir ela me chamando pra brincarmos em seu mundo colorido de novo, alongando os fonemas finais do meu nome, com seus dentinhos separados, se agarrando em minha cintura, colocando seus pés sob os meus enquanto cantavamos "I'm singing in the rain" :ó)
"I love you so so so much"
sexta-feira, 2 de março de 2012
.Yara.
Yara vinha às sextas e me abraçava com muita verdade, eu esperava aquele abraço a semana inteira.
Ela tomava seu café habitual e contava da sua semana, logo já tirava seus panos egípcios e iniciava a odisseia pra limpar aquela casa gigantesca e eu ia com pesar começar a passar a pilha de camisas do pai da casa, odeio passar roupa e Yara às vezes queria ajudar.
A gente ficava rindo e conversando pelos corredores, mais tarde eu lavava minha roupa e tentava organizar a zona do meu quarto um pouquinho, ela ria de mim.
Ao meio dia era hora do almoço, sempre almoçávamos juntas, ela quase sempre trazia coisas de casa, eu guardava os restos do jantar especialmente pra isso, e faziamos uma junção de tudo e ficava aquele almoço mais árabe e mais brasileiro, nada de pão com manteiga apenas como fazem os holandeses, ficava tão especial que começamos a convidar a mãe da casa para almoçar conosco e nossos almoços viraram tradição na casa.
Yara ria e ria e sorria, falava inglês misturado com holandês misturado com árabe e eu amava ouvi-la falar.
Dançava e ouvia suas músicas árabes que ecoavam por toda casa, me fazia rir e rir e sorrir, às vezes deitava um pouquinho na minha cama, sempre confessava que não fazia os rituais da sua religião, nem rezava mais, dizia que a vida no ocidente não lhe permitia, eu a chavama de "bad muslim" e ela ria mais.
Ela me chamava de querida, ao partir sempre vinha me dar um beijo terno, no rosto, ou no pescoço, e eu depois de um tempo, comecei a misturar holandes com inglês e nos entendiamos mais e mais, daquela forma meio torta, mas com Yara aprendi que gestos falam tão mais alto.
Teve dias que as histórias foram tristes,nem sempre era fácil ser muçulmana trabalhadora vivendo no ocidente e nem ser brasileira latina pobre vivendo na casa de holandeses tradicionais, mas por toda sorte do mundo, eu tive a Yara.
Em sua casa tudo era tão verdade, o cheiro de comida dançava pela casa, suas filhas, Bisan e Ranin, não me entendiam muito mas nos divertíamos tanto sem necessidade de palavras, comíamos tanto e tudo era feito pelas mãos, sem maquinas pra tudo, como na casa holandesa, eu sentia tanta falta dessa verdade.
Em nossa despedida Yara foi forte, eu não, chorei sem conseguir disfarçar, chorei de uma dor que vinha de um profundo tão imenso e a vi partir, seguindo a pé até o tram. Queria poder abraça-la de novo, ainda mais agora que espera um terceiro filho, queria ouvi-la rir de mim e fazer aqueles sons do Egito.
Yara eu ainda vou conseguir fazer o Ramadan pra me lembrar mais vivamente ainda de você, mas ano passado não consegui.
Te amo muito pra sempre.
Ela tomava seu café habitual e contava da sua semana, logo já tirava seus panos egípcios e iniciava a odisseia pra limpar aquela casa gigantesca e eu ia com pesar começar a passar a pilha de camisas do pai da casa, odeio passar roupa e Yara às vezes queria ajudar.
A gente ficava rindo e conversando pelos corredores, mais tarde eu lavava minha roupa e tentava organizar a zona do meu quarto um pouquinho, ela ria de mim.
Ao meio dia era hora do almoço, sempre almoçávamos juntas, ela quase sempre trazia coisas de casa, eu guardava os restos do jantar especialmente pra isso, e faziamos uma junção de tudo e ficava aquele almoço mais árabe e mais brasileiro, nada de pão com manteiga apenas como fazem os holandeses, ficava tão especial que começamos a convidar a mãe da casa para almoçar conosco e nossos almoços viraram tradição na casa.
Yara ria e ria e sorria, falava inglês misturado com holandês misturado com árabe e eu amava ouvi-la falar.
Dançava e ouvia suas músicas árabes que ecoavam por toda casa, me fazia rir e rir e sorrir, às vezes deitava um pouquinho na minha cama, sempre confessava que não fazia os rituais da sua religião, nem rezava mais, dizia que a vida no ocidente não lhe permitia, eu a chavama de "bad muslim" e ela ria mais.
Ela me chamava de querida, ao partir sempre vinha me dar um beijo terno, no rosto, ou no pescoço, e eu depois de um tempo, comecei a misturar holandes com inglês e nos entendiamos mais e mais, daquela forma meio torta, mas com Yara aprendi que gestos falam tão mais alto.
Teve dias que as histórias foram tristes,nem sempre era fácil ser muçulmana trabalhadora vivendo no ocidente e nem ser brasileira latina pobre vivendo na casa de holandeses tradicionais, mas por toda sorte do mundo, eu tive a Yara.
Em sua casa tudo era tão verdade, o cheiro de comida dançava pela casa, suas filhas, Bisan e Ranin, não me entendiam muito mas nos divertíamos tanto sem necessidade de palavras, comíamos tanto e tudo era feito pelas mãos, sem maquinas pra tudo, como na casa holandesa, eu sentia tanta falta dessa verdade.
Em nossa despedida Yara foi forte, eu não, chorei sem conseguir disfarçar, chorei de uma dor que vinha de um profundo tão imenso e a vi partir, seguindo a pé até o tram. Queria poder abraça-la de novo, ainda mais agora que espera um terceiro filho, queria ouvi-la rir de mim e fazer aqueles sons do Egito.
Yara eu ainda vou conseguir fazer o Ramadan pra me lembrar mais vivamente ainda de você, mas ano passado não consegui.
Te amo muito pra sempre.
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| Última vez na casa dela |
terça-feira, 15 de novembro de 2011
.sobre a rotina.
Leia ao som de Take me Home - Russian Red
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Devem ter sido por volta de trezentas embaladas de alumínio nos pães para as lancheiras das meninas, manteiga de amendoim pra Hanna, nutella pra Amber. Subir, escovar dentes, fazer os cabelos, entregar as lancheiras, separar umas brigas de quando em quando, dar tchau antes de irem pra escola com os pais, adorar o silêncio, subir, fazer as camas, abrir as janelas pra entrar um ár, fecha-las, pelas sextas trocar os lençóis, descer, ver email, facebook, essas coisas, cochilo, almoço, aquele pão descongelado com manteiga e flocos de chocolate, meu favorito, escrever, ler, ir busca-las, as vezes ir ao mercado, biblioteca. Na escola Amber sempre saia primeiro, me abraçava, jogava a mochila, ia rodar naquelas barras estranhas, pedia pra brincar com uma amiguinha, Hanna sempre pedia pra brincar e sempre demorava, e quantas vezes tinha que dizer não, porque tinha ballet, ou hockey, ou musical, ou qualquer outra atividade que limitava muito o tempo livre daquelas garotas, as vezes dava pena.
A logistica às vezes era complicada, deixar um em um lugar, buscar outra em outro, quiça até rolava almoço pra elas dentro da bicicleta, portanto chegar em casa era sempre um alivio, ainda mais em dias chuvosos ou no inverno quando tinhamos que pedalar no escuro, gostava muito da escola de ballet no entanto, ficava lá com a Kelsey geralmente, tomando chá comendo misto-quente.
Cinco horas começava a preparar o jantar, checava as lancheiras, Amber quase nunca bebia aquele leite de cabra fedido, as deixava assistir tv finalmente, as seis todos à mesa, depois subiam com os pais, eu ficava com a cozinha, e por vezes, quando eles me pediam para fazer babysit, eu ficava com a cozinha e com elas tambem e terminava o dia morta, ainda mais se tivesse sido dia livre da Amber na escola. Amber sempre queria desenhar mais um pouco, Hanna absorta em seus livros, era sempre uma negociação, ela dizia "mais duas paginas" eu "mais uma" ela dizia "mais três", eu "mais duas e ponto final", na verdade só fazia aquilo pra não perder minha autoridade, mas eu jamais iria recusar um pedido de uma criança que quer ler livros, geralmente descia pro meu quarto e só subia quando certeza, ela ja teria lido quase o livro todo, nunca contem aos seus pais dela por favor. rs
Em alguns dias a rotina me corroía, eu não lembro mais desse sentimento, mas sei que ele existiu, nenhum dia era igual ao outro, mas às vezes me sentia presa em uma casa de brinquedo, em um bairro da fantasia, tendo que fazer coisas mecanicalmente todos os dias, não ter que ir a lugar algum, não precisar ser ninguém dentro de um contexto mais coletivamente amplo, não fazer parte de grupos sociais, ser apenas uma desgarrada de sua pátria vivendo na casa alheia com data marcada de fim, às vezes me pegava no quarto das meninas deitada no chão olhando pro teto, ou de beira com o canal, olhando pro céu, que na Holanda parecia tão mais longe de mim, ao mesmo tempo que me sentia tão alí, não me sentia tambem, acho que deve ser um sentimento parecido se alguém fica sabendo a data que irá morrer, eu não iria morrer mesmo, mas iria partir daquela vida dentro de tantos meses, dias, horas e minutos, e cada dia era um dia a menos, e a rotina não mudaria por minha causa, e era a mesma antes da minha chegada, e teria que continuar depois que eu partisse, muitas haviam feito o mesmo antes, e outras fariam depois, não adiantava então lutar contra a rotina, porque ela era muito mais real e tangível que eu mesma, aprendi então em pouco tempo a saborea-la, curti-la e ser amiga dela, me despedia dela aos fins de semana e nos feriados prolongados, voltava meio perdida, mas sentava com ela de novo, tranquilamente no chão do quarto das pequenas, às vezes chorava ao seu lado, sorria, ria e tinha medo do seu fim, pra mim.
Eu parti, a rotina ficou e me partiu em duas.
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Devem ter sido por volta de trezentas embaladas de alumínio nos pães para as lancheiras das meninas, manteiga de amendoim pra Hanna, nutella pra Amber. Subir, escovar dentes, fazer os cabelos, entregar as lancheiras, separar umas brigas de quando em quando, dar tchau antes de irem pra escola com os pais, adorar o silêncio, subir, fazer as camas, abrir as janelas pra entrar um ár, fecha-las, pelas sextas trocar os lençóis, descer, ver email, facebook, essas coisas, cochilo, almoço, aquele pão descongelado com manteiga e flocos de chocolate, meu favorito, escrever, ler, ir busca-las, as vezes ir ao mercado, biblioteca. Na escola Amber sempre saia primeiro, me abraçava, jogava a mochila, ia rodar naquelas barras estranhas, pedia pra brincar com uma amiguinha, Hanna sempre pedia pra brincar e sempre demorava, e quantas vezes tinha que dizer não, porque tinha ballet, ou hockey, ou musical, ou qualquer outra atividade que limitava muito o tempo livre daquelas garotas, as vezes dava pena.
A logistica às vezes era complicada, deixar um em um lugar, buscar outra em outro, quiça até rolava almoço pra elas dentro da bicicleta, portanto chegar em casa era sempre um alivio, ainda mais em dias chuvosos ou no inverno quando tinhamos que pedalar no escuro, gostava muito da escola de ballet no entanto, ficava lá com a Kelsey geralmente, tomando chá comendo misto-quente.
Cinco horas começava a preparar o jantar, checava as lancheiras, Amber quase nunca bebia aquele leite de cabra fedido, as deixava assistir tv finalmente, as seis todos à mesa, depois subiam com os pais, eu ficava com a cozinha, e por vezes, quando eles me pediam para fazer babysit, eu ficava com a cozinha e com elas tambem e terminava o dia morta, ainda mais se tivesse sido dia livre da Amber na escola. Amber sempre queria desenhar mais um pouco, Hanna absorta em seus livros, era sempre uma negociação, ela dizia "mais duas paginas" eu "mais uma" ela dizia "mais três", eu "mais duas e ponto final", na verdade só fazia aquilo pra não perder minha autoridade, mas eu jamais iria recusar um pedido de uma criança que quer ler livros, geralmente descia pro meu quarto e só subia quando certeza, ela ja teria lido quase o livro todo, nunca contem aos seus pais dela por favor. rs
Em alguns dias a rotina me corroía, eu não lembro mais desse sentimento, mas sei que ele existiu, nenhum dia era igual ao outro, mas às vezes me sentia presa em uma casa de brinquedo, em um bairro da fantasia, tendo que fazer coisas mecanicalmente todos os dias, não ter que ir a lugar algum, não precisar ser ninguém dentro de um contexto mais coletivamente amplo, não fazer parte de grupos sociais, ser apenas uma desgarrada de sua pátria vivendo na casa alheia com data marcada de fim, às vezes me pegava no quarto das meninas deitada no chão olhando pro teto, ou de beira com o canal, olhando pro céu, que na Holanda parecia tão mais longe de mim, ao mesmo tempo que me sentia tão alí, não me sentia tambem, acho que deve ser um sentimento parecido se alguém fica sabendo a data que irá morrer, eu não iria morrer mesmo, mas iria partir daquela vida dentro de tantos meses, dias, horas e minutos, e cada dia era um dia a menos, e a rotina não mudaria por minha causa, e era a mesma antes da minha chegada, e teria que continuar depois que eu partisse, muitas haviam feito o mesmo antes, e outras fariam depois, não adiantava então lutar contra a rotina, porque ela era muito mais real e tangível que eu mesma, aprendi então em pouco tempo a saborea-la, curti-la e ser amiga dela, me despedia dela aos fins de semana e nos feriados prolongados, voltava meio perdida, mas sentava com ela de novo, tranquilamente no chão do quarto das pequenas, às vezes chorava ao seu lado, sorria, ria e tinha medo do seu fim, pra mim.
Eu parti, a rotina ficou e me partiu em duas.
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| A rotina da despedida |
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
.ensaios sobre neve.
Leia ao som de Snow - Kokim Gumi
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O fim do verão na Holanda foi tão triste, todos os brinquedos de jardim das meninas foram recolhidos e guardados no porão, as pernas de pau, a piscina de plastico, as raquetes, as pistolas d'agua que eu tanto amava e qualquer outra coisa que havíamos usado todo o verão para nos divertir no grande jardim da casa na Spitfire 5.
As folhas das árvores se desprenderam todas, o canal que passava aos fundos da casa começou a congelar dia-a-dia, o sistema de aquecimento automático ligou finalmente, o chão se aquecia de forma uniforme, as roupas de verão das meninas foram pro sotão, a noite passou a nos visitar tão mais cedo, 5 da tarde já estava tudo escuro, todas as lampadas de nossas bikes foram revisadas e trocadas na bicicletária. Foi enfim todo um processo para irmos de uma estação a outra, os holandeses já estavam habituados e eu observava tudo aquilo como um grande espetáculo com sabor de uma vez só.
Havia dado no jornal que seria o inverno mais frio dos últimos mil anos, achei graça, não me abalei muito, na verdade esperava ansiosa pela neve, já a conhecia, mas queria muito ve-la novamente, já fazia tempo desde a ultima vez.
Um dia cozinhava contente enquanto as meninas assistiam tv na sala, olhei pela janela e vi o canal quase todo congelado, voltei aos meus legumes e quando olhei pela janela de novo, tudo estava branco como um pão doce de padaria, foi incrível como a danada chegou sorrateira, fui correndo pela casa para contar para as meninas a novidade, e nos três colamos nossas caras contra a janela para observar a neve rala e brilhante que caia leve sobre todas as coisas, foi tão bonita nossa alegria partilhada.
Nevou bastante nos dias seguintes, às vezes chovia e neve derretia toda, só ficava as placas de gelos escorregadias pelas ruas e sobre a cama elástica, depois nevava tudo de novo, diziam que eu tinha sorte, porque não era todos anos que havia tanta neve, às vezes toda aquela neve foi um problema enorme, tal como quando os trams paravam de passar e eu e as meninas tínhamos que ir pro centro de sport de inverno que era longe pra caramba, os holandeses ficavam enlouquecidos sem transporte público, eu via a hora que começariam a se estapear nas ruas do centro de Den Haag, por não saberem como lidar com o caos, mas mesmo assim, neve é uma coisa que deixa qualquer adulto virar criança de novo e animava a gente com todo aquele frio, até meus hostparents, que eram as pessoas mais adultas que conheci na vida, se deixavam levar pela magia da neve.
Uma noite saindo de um restaurante depois de um jantar em família apos uma tarde no circo de Natal, eu os pais e as meninas iniciamos uma super guerra de bolas de neve, corríamos pelo estacionamento, nos escondíamos atras dos carros e riamos sem parar, nunca tinha brincado com todos eles juntos, os avós e os tios ficaram nos observando na escadaria do restaurante, nunca me senti tão parte daquela família como naquela noite. Entramos no carro tempos depois cheias de neve até as orelhas, caras vermelhas, rindo, sem necessidade de muita comunicação verbal, de rostos gelados e corações quentes.
Queria ter trazido um pouco de neve pra casa, mas me disseram que derreteria.
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O fim do verão na Holanda foi tão triste, todos os brinquedos de jardim das meninas foram recolhidos e guardados no porão, as pernas de pau, a piscina de plastico, as raquetes, as pistolas d'agua que eu tanto amava e qualquer outra coisa que havíamos usado todo o verão para nos divertir no grande jardim da casa na Spitfire 5.
As folhas das árvores se desprenderam todas, o canal que passava aos fundos da casa começou a congelar dia-a-dia, o sistema de aquecimento automático ligou finalmente, o chão se aquecia de forma uniforme, as roupas de verão das meninas foram pro sotão, a noite passou a nos visitar tão mais cedo, 5 da tarde já estava tudo escuro, todas as lampadas de nossas bikes foram revisadas e trocadas na bicicletária. Foi enfim todo um processo para irmos de uma estação a outra, os holandeses já estavam habituados e eu observava tudo aquilo como um grande espetáculo com sabor de uma vez só.
Havia dado no jornal que seria o inverno mais frio dos últimos mil anos, achei graça, não me abalei muito, na verdade esperava ansiosa pela neve, já a conhecia, mas queria muito ve-la novamente, já fazia tempo desde a ultima vez.
Um dia cozinhava contente enquanto as meninas assistiam tv na sala, olhei pela janela e vi o canal quase todo congelado, voltei aos meus legumes e quando olhei pela janela de novo, tudo estava branco como um pão doce de padaria, foi incrível como a danada chegou sorrateira, fui correndo pela casa para contar para as meninas a novidade, e nos três colamos nossas caras contra a janela para observar a neve rala e brilhante que caia leve sobre todas as coisas, foi tão bonita nossa alegria partilhada.
Nevou bastante nos dias seguintes, às vezes chovia e neve derretia toda, só ficava as placas de gelos escorregadias pelas ruas e sobre a cama elástica, depois nevava tudo de novo, diziam que eu tinha sorte, porque não era todos anos que havia tanta neve, às vezes toda aquela neve foi um problema enorme, tal como quando os trams paravam de passar e eu e as meninas tínhamos que ir pro centro de sport de inverno que era longe pra caramba, os holandeses ficavam enlouquecidos sem transporte público, eu via a hora que começariam a se estapear nas ruas do centro de Den Haag, por não saberem como lidar com o caos, mas mesmo assim, neve é uma coisa que deixa qualquer adulto virar criança de novo e animava a gente com todo aquele frio, até meus hostparents, que eram as pessoas mais adultas que conheci na vida, se deixavam levar pela magia da neve.
Uma noite saindo de um restaurante depois de um jantar em família apos uma tarde no circo de Natal, eu os pais e as meninas iniciamos uma super guerra de bolas de neve, corríamos pelo estacionamento, nos escondíamos atras dos carros e riamos sem parar, nunca tinha brincado com todos eles juntos, os avós e os tios ficaram nos observando na escadaria do restaurante, nunca me senti tão parte daquela família como naquela noite. Entramos no carro tempos depois cheias de neve até as orelhas, caras vermelhas, rindo, sem necessidade de muita comunicação verbal, de rostos gelados e corações quentes.
Queria ter trazido um pouco de neve pra casa, mas me disseram que derreteria.
| e da janela eu podia ver |
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
.Segundo Sol.
Leia ao som de Sigur Rós - Inní Mér Syngur Vitleysingur
A família partiu pela manhã, seguiram pra Áustria, só nos veríamos em duas semanas, eu e as meninas nos abraçamos tanto e tantas vezes ao se despedir que até fiquei cansada, elas ficaram acenando para mim até o carro deles virar a rua e sumir do meu campo de visão.
Eu ainda não acreditava que aquela noite embarcaria para a tão sonhada Islândia, meu voo Icelandair sairia do aeroporto internacional de Schiphol às 23h45.
Deixei a casa na rua Spitfire número 5 por volta das 18h, chequei todas as trancas, janelas, esvaziei a fruteira, tirei equipamentos eletronicos das tomadas, terminei de fazer a mala, fiz lanchinhos pra viagem, organizei o quarto, acionei o alarme, dei uma última olhadela pra grande casa e parti. Era um dia quente de verão, daqueles que o sol só se despedia as 23h e que me dão um bocado de saudades.
Peguei o trem errado, um que não fazia parada no aeroporto, fui parar em Amsterdam, conheci um africano refugiado do Congo que me contou toda a triste história da guerra civil em seu pais, ele gostou de mim, fez questão de me levar até o trem certo e se despediu calorosamente como se fosse um amigo próximo.
Encontrei-me com uma amiga au pair do sul do Brasil no aeroporto, a doce Beth, assistimos o primeiro tempo do jogo final da copa do mundo, Holanda contra Espanha, em um bar e depois em um grande telão instalado em frente ao Schiphol, com tantos outros holandeses esperançosos.
Antes de começar o segundo tempo, ainda em zero a zero, me despedi da Beth, fiz check in e fui pra sala de espera, assisti os momentos finais do jogo da janela do avião antes do mesmo decolar, vinte minutos depois o piloto nos deu a noticia que a Espanha havia ganhado, para a tristeza das tantas famílias holandesas a bordo, confesso também fiquei meio triste, ao pensar nas meninas.
Decolamos, já escurecia na Holanda, dez minutos depois já estávamos sobre o mar, era tão bonito, a escuridão foi devorando o oceano e quando já estavamos em completa escuridão, o sol voltou a despontar lá no horizonte e pouco depois nasceu pela segunda vez naquele dia para nós, meus olhos ficaram úmidos em lágrimas de alegria, lembrei-me do pequeno príncipe, que podia ver quantos pores-do-sol quisesse por dia em seu pequeno planeta, e que gostava de fazê-lo quando estava triste, não sei como cheguei a ter a chance de ter dois pores- do- sol no mesmo dia, mas a sensação sem dúvida não tinha nada a ver com qualquer tristeza possível.
Aterrissar na Islândia foi como aterrissar na Lua, nunca fui a lua, mas estou quase certa que o sentimento é parecido, aquele chão de lava de vulcão solidificada, todo aquela imensidão inabitada , questionei até se existia vida naquele "planeta". Eu não via a hora de poder pisar em tudo aquilo e explorar o que pudesse, me invadir de tanta luz, solitude e espaço. E foi o que fiz.
Tudo aquilo foi tão grandioso que hoje verbalizar é até meio difícil, se nostalgia me desse vontade de ver pores-do-sol, teria que ir e voltar lá muitas vezes no mesmo dia hoje.
E, foi verdade, não escureceu nenhum dia na Islândia.
A família partiu pela manhã, seguiram pra Áustria, só nos veríamos em duas semanas, eu e as meninas nos abraçamos tanto e tantas vezes ao se despedir que até fiquei cansada, elas ficaram acenando para mim até o carro deles virar a rua e sumir do meu campo de visão.
Eu ainda não acreditava que aquela noite embarcaria para a tão sonhada Islândia, meu voo Icelandair sairia do aeroporto internacional de Schiphol às 23h45.
Deixei a casa na rua Spitfire número 5 por volta das 18h, chequei todas as trancas, janelas, esvaziei a fruteira, tirei equipamentos eletronicos das tomadas, terminei de fazer a mala, fiz lanchinhos pra viagem, organizei o quarto, acionei o alarme, dei uma última olhadela pra grande casa e parti. Era um dia quente de verão, daqueles que o sol só se despedia as 23h e que me dão um bocado de saudades.
Peguei o trem errado, um que não fazia parada no aeroporto, fui parar em Amsterdam, conheci um africano refugiado do Congo que me contou toda a triste história da guerra civil em seu pais, ele gostou de mim, fez questão de me levar até o trem certo e se despediu calorosamente como se fosse um amigo próximo.
Encontrei-me com uma amiga au pair do sul do Brasil no aeroporto, a doce Beth, assistimos o primeiro tempo do jogo final da copa do mundo, Holanda contra Espanha, em um bar e depois em um grande telão instalado em frente ao Schiphol, com tantos outros holandeses esperançosos.
Antes de começar o segundo tempo, ainda em zero a zero, me despedi da Beth, fiz check in e fui pra sala de espera, assisti os momentos finais do jogo da janela do avião antes do mesmo decolar, vinte minutos depois o piloto nos deu a noticia que a Espanha havia ganhado, para a tristeza das tantas famílias holandesas a bordo, confesso também fiquei meio triste, ao pensar nas meninas.
Decolamos, já escurecia na Holanda, dez minutos depois já estávamos sobre o mar, era tão bonito, a escuridão foi devorando o oceano e quando já estavamos em completa escuridão, o sol voltou a despontar lá no horizonte e pouco depois nasceu pela segunda vez naquele dia para nós, meus olhos ficaram úmidos em lágrimas de alegria, lembrei-me do pequeno príncipe, que podia ver quantos pores-do-sol quisesse por dia em seu pequeno planeta, e que gostava de fazê-lo quando estava triste, não sei como cheguei a ter a chance de ter dois pores- do- sol no mesmo dia, mas a sensação sem dúvida não tinha nada a ver com qualquer tristeza possível.
Aterrissar na Islândia foi como aterrissar na Lua, nunca fui a lua, mas estou quase certa que o sentimento é parecido, aquele chão de lava de vulcão solidificada, todo aquela imensidão inabitada , questionei até se existia vida naquele "planeta". Eu não via a hora de poder pisar em tudo aquilo e explorar o que pudesse, me invadir de tanta luz, solitude e espaço. E foi o que fiz.
Tudo aquilo foi tão grandioso que hoje verbalizar é até meio difícil, se nostalgia me desse vontade de ver pores-do-sol, teria que ir e voltar lá muitas vezes no mesmo dia hoje.
E, foi verdade, não escureceu nenhum dia na Islândia.
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| Meu segundo por-do-sol. |
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