Entrei na aeronave, sentei, ainda em choque, não tive reação alguma, ainda não tinha ninguém do meu lado, sempre me pergunto quem vai ser essa pessoa, porque pode ser agradável ou um terror absoluto, no mais às vezes fico feliz quando não senta ninguém, em aviões então, classe econômica é claro pra mim, e a falta de espaço é obvia, nos voos da KLM eu teria duas mantas azuis felpudas e não teria que me preocupar se a pessoa fosse uma completa bossal.
Ainda ficava na mente o olhar dos amigos que foram no aeroporto se despedir, meu namorado na época, todos eles chorando e eu partindo, ainda não absorvia direito.
Estava quase todo mundo embarcado e ainda ninguém havia ocupado o assento ao meu lado, já estava conformada com a solidão, quando então um moço alto e bonito apareceu, ele olhou pra mim como se já nos conhecêssemos, como se estivesse me dizendo "aí está você, cheguei finalmente".
Ele realmente estava meio atrasado, e depois que se sentou pouco depois a aeronave entrou em processo de decolagem, eu ainda em estado de choque, e em poucos minutos já estávamos no ár, ainda nenhuma lágrima, foi então quando resolvi olhar pela janela e vi são paulo sumir, e quando são paulo sumiu eu chorei, chorei quase que por meia hora soluçando e tudo, o moço ao meu lado não disse uma palavra mas estranhamente senti que não estava sozinha, quando finalmente parei de chorar ele então resolveu iniciar uma conversa.
E conversamos por exatas 11 horas que se seguiram, como se fossemos amigos de longa data, assistimos a um filme, que eu recomendei "where the wild things are", cada um em sua tela, mas ele fazia questão que estivéssemos sempre sincronizados, ao fim do filme olhei pra ele e percebi que chorava sorrindo, sofri de uma paixão de momento, claro, tínhamos nossos ombros encostados e foi todo nosso contato físico e pra mim isso foi muito bonito de verdade.
A viagem chegava ao fim, já podia ver a colcha de retalho que formavam os pastos holandeses enquanto o piloto esperava permissão pra aterrissar, o céu cinzento como seria quase todos os dias, ansiedade e medo, mas olhar pra Elmar dava uma paz enorme. Cara, como ele foi essencial.
Uma semana depois trocamos dois emails ou menos e nunca mais nos falamos, às vezes me pergunto se ele era mesmo de verdade.
E o ano todo foi assim, encontro com pessoas que mudaram tudo e partiram.
Queria que ele soubesse, vou escrever um bilhete.
ao voltar daquele ano um amigo que ficou lá me escreveu "Para não esquecer, lembre-se todos os dias, nem que seja um pouco, de algo que viveu aqui." Criei o 365 então.
sábado, 26 de janeiro de 2013
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
detalhes que me retornam quando eu ando de trem
a saudade é composta por um conjunto de flashes de memorias que nos podem atacar a qualquer horário do dia, no meu caso, principalmente, sentada no trem e às vezes até mareja os olhos.
as pessoas todas dessas memorias, nem devem saber o quão seus detalhes de gestos tão particulares me deixaram sobre as retinas da saudade.
E nem precisamos ter convivido tanto tempo, eu produzo saudade com facilidade, aos olhos da bondade e de um dia de sorriso partilhado, de gente que escreveu meu nome em pedaço de papel pra não esquecer, mas quiça tenha esquecido, não eu, e não me abala em tanto as deficiências da mutualidade, dentro de mim as coisas vivem em paz, e em viagens, onde despedida era liquidação, os detalhes, esses eram essenciais da existência efêmera.
lembro-me de um olhar que passeava muito rápido junto com a velocidade do metro indo pelas estações, teve aquele beijo que era dado no ombro, a busca insistente das vestes de dormir por debaixo dos travesseiros, os bilhetinhos deixados sobre o balcão da cozinha, o riso incontido, as caras de susto mais engraçadas do mundo, os ataques de stress por bobagem e a risadaria mais tarde, um andar galante com ornamentos fantásticos dentro de um mistério tão bonito, a mesma escolha pelos mesmos sabores de sorvete todas as vezes, e giravam e pulavam, suas roupas largas e suas meias em multicoloridades, sempre sem fazer par, a cantoria pelos corredores, seu cheiro de flores, seu sotaque engraçado, aquele jeito de fumar e de apertar os lábios com o polegar apos a primeira tragada, a risada de senhor de noventa anos mesmo sendo tão jovem, tão jovem, tão vivo.
Eu catalogo esses gestos, eu os imprimo na essência, eu os tento reproduzir em uma forma discreta de não apenas lembrar de todas essas pessoas, mas de vivencia-las em meus passos longiquos, ninguém precisa saber disso, embora agora talvez o saiba, mas eu as sinto pelos gestos particulares e a distancia se torna menos assustadora, enfraquecedora de relações e manipuladora das verdades presentes.
e o trem nunca deixou de me levar pra estação certa, mesmo que eu não consiga ver as formas que do lado de fora se apresentam devido aos pingos de chuva.
o amor nunca foi tão simples assim.
_____________________________
ao som de Sigur Rós - Varðeldur
as pessoas todas dessas memorias, nem devem saber o quão seus detalhes de gestos tão particulares me deixaram sobre as retinas da saudade.
E nem precisamos ter convivido tanto tempo, eu produzo saudade com facilidade, aos olhos da bondade e de um dia de sorriso partilhado, de gente que escreveu meu nome em pedaço de papel pra não esquecer, mas quiça tenha esquecido, não eu, e não me abala em tanto as deficiências da mutualidade, dentro de mim as coisas vivem em paz, e em viagens, onde despedida era liquidação, os detalhes, esses eram essenciais da existência efêmera.
lembro-me de um olhar que passeava muito rápido junto com a velocidade do metro indo pelas estações, teve aquele beijo que era dado no ombro, a busca insistente das vestes de dormir por debaixo dos travesseiros, os bilhetinhos deixados sobre o balcão da cozinha, o riso incontido, as caras de susto mais engraçadas do mundo, os ataques de stress por bobagem e a risadaria mais tarde, um andar galante com ornamentos fantásticos dentro de um mistério tão bonito, a mesma escolha pelos mesmos sabores de sorvete todas as vezes, e giravam e pulavam, suas roupas largas e suas meias em multicoloridades, sempre sem fazer par, a cantoria pelos corredores, seu cheiro de flores, seu sotaque engraçado, aquele jeito de fumar e de apertar os lábios com o polegar apos a primeira tragada, a risada de senhor de noventa anos mesmo sendo tão jovem, tão jovem, tão vivo.
Eu catalogo esses gestos, eu os imprimo na essência, eu os tento reproduzir em uma forma discreta de não apenas lembrar de todas essas pessoas, mas de vivencia-las em meus passos longiquos, ninguém precisa saber disso, embora agora talvez o saiba, mas eu as sinto pelos gestos particulares e a distancia se torna menos assustadora, enfraquecedora de relações e manipuladora das verdades presentes.
e o trem nunca deixou de me levar pra estação certa, mesmo que eu não consiga ver as formas que do lado de fora se apresentam devido aos pingos de chuva.
o amor nunca foi tão simples assim.
_____________________________
ao som de Sigur Rós - Varðeldur
sábado, 22 de setembro de 2012
.bicicletando.
Dizem que na Holanda saber andar de bicicleta é
fundamental.
E soube que isso era verdade quando vi que era necessário
informar minhas habilidades com a tal no formulário de inscrição,
a moça da agencia disse que a resposta negativa para esse item reduziria em
muito as minhas chances de conseguir uma hostfamily.
Entrei em pânico, pois eu, nos meus 21 anos,
realmente não sabia andar de bicicleta! Não sei o que me aconteceu na infância,
deve ter sido algum tipo de autismo, só sei que pulei essa etapa da meninice.
Um grande amigo veio me ajudar a aprender então, segurava o banco pra
mim e tudo, mas em um certo momento disse que apenas eu poderia conseguir, não
adiantava mais, então sentou, e ficou me observando quase cair 72 mil vezes, mas eu não desisti, levantava e ia de novo e de novo e de novo
até que não sei, bicicleta é essa coisa mágica, de repente as coisas dão certo
e você sai realmente do lugar sem cair, a sensação é tão bonita, fiquei tão
feliz que esqueci de freiar e fui contra a muretinha da quadra onde treinava,
mas nem me importei, sorria de canto à canto.
Eu acordava cedo todos os dias para praticar, fizesse
chuva ou sol, tinha pânico
ainda de sair andando na rua, com o tempo passei a andar na rua da praça, mas
nunca em lugares mais ousados.
Aí eu fui pra Holanda né, e acho que em menos de 24
horas após minha chegada eu já estava montada em uma bicicleta, o pais realmente tem mais bikes que pessoas de todos os jeitos, TODOS, eu mesma tinha três
bicicletas lá, incluindo a famosa bakfiets, bike de três rodas com uma
grande caixa na frente onde eu levava as crianças, as compras, o lixo, tudo,
ela era pesada, difícil de manejar, mas com o tempo aprendi as técnicas, ao fim
eu a achava muito pratica, na realidade sinto muita falta dela, até mesmo
quando tinha quatro crianças dentro, debaixo do frio, da chuva, ou da neve.
Historias micosas com bicicletas na Holanda, no entanto, é o que não me falta, não cheguei a cair, porque tinha tanto medo que ao invés de cair eu jogava a bicicleta longe e saia dela em pulos mirabolantes, mas cheguei a quase morrer quando perdi o controle da bakfiet em uma avenida ou quando atropelei a perna de uma moça que havia caído no chão a minha frente após ser atropelada pela au pair kid de uma amiga, quase atropelei turistas em Paris por esquecer que o freio era nas mãos e não nos pés como na Holanda, quebrei o pedaço de uma moto tentando passar a bakfiet em um lugar estreito e fugi sem dar satisfações incentivada pela menina mais velha e muitas outras infinitas gafes, os cara da bicicletaria me adoravam "lá vem a brasileira doida" certeza eles pensavam isso.
Em uma bicicleta também acho que vivi meus momentos mais lindos lá fora; já escrevi aqui antes sobre meus momentos comigo mesma adentrando ciclovias no meio do nada junto com a minha bicicletinha, meus passeios com as meninas do bairro às quintas para os ladies night, bike trips de Haag à Leiden, de Best à Eindhoven, cantando ou conversando sobre a vida, lado à lado com as minhas meninas conversando sobre nossas historias juntas, rindo e fazendo sinfonia com os sininhos de nossas bicicletas, voltando ouvindo música muito alto do curso de holandês às 23h vendo o risco laranja do sol no horizonte, pedaladas de verão em Amsterdam junto com Enora, atravessando Paris de Agosto com Antoine, me perdendo, me achando, conquistando o meu mundo tão universalmente particular.
Desde que voltei pro Brasil devo ter andado de bicicleta duas vezes no máximo, simplesmente não consigo, não consigo ter animo, ter vontade, me faz falta todo um mundo voltado para as bicicletas, onde elas são orgulho e não alvo de retalhação, grito de luta, não sei explicar, apenas penso que amanhã supero isso, mas o dia nunca chega.
Pra sempre dutch bicicletas aqui dentro do meu coraçãozinho errante.
domingo, 26 de agosto de 2012
ensaios sobre a tecnologia
Quando cheguei não entendi muita coisa direito, eram tantos dispositivos disso e daquilo que me senti automaticamente perdida, tá certo que o hostfather exagerava um pouco pois queria me explicar até como se usava o microondas, sempre me perguntei o que eles pensavam sobre minhas condições de vida no Brasil, já que no meu último dia Suzanne me perguntou se eu teria acesso à internet para mandar um email avisando que havia chegado bem, mas enfim.
A casa não tinha chaves, a entrada era pela leitura da impressão digital, uma vez brinquei dizendo que "já pensou fosse leitura ocular?" e o hostfather respondeu "sim, eu fiz o orçamento, mas era exorbitantemente caro" okay, okay, juro que me recusaria a morar em um lugar desse, ia me sentir demais em um filme de ação americano todos os dias.
Eu achava estranho que na dispensa eles só tinham a mangueira do aspirador de pó, cheguei até pensar "ao menos uma coisa deve estar errada", só que não, na realidade nas paredes tinham quadradinhos que quando abríamos começava a sugar, tudo que precisava fazer era colocar a mangueira lá e zas, não me perguntem pra onde esse bendito pó ia, me explicaram que tinha um compartimento em algum lugar da casa, mas eu preferia imaginar que ia pra um mundo paralelo.
As cortinas do corredor fechavam automático, eu gostava disso, sei lá me divertia apertar o botão e ve-las revelando ou escondendo o mundo lá de fora enquanto eu cruzava a casa.
A porta principal tinha travas elétricas automáticas, no inverno o chão se aquecia uniformemente, a luz do toillet acendia automático também, tava mal regulada então ficava escuro rápido, era ridículo ficar mexendo os braços sentadas no vaso, sério.
Na cozinha tinha máquina de café e chocolate quente, máquina de vapor pra cozir os legumes, forno, microondas, fogão elétrico, lava louças e uns 5 programas de iluminação diferente, eu nunca decorei o certo, ficava apertando até achar o que queria, todos os dias.
Quando tocavam a campanhia o telefone tocava também, aí dava pra abrir a porta apertando sei lá que botão, mas isso não funcionava direito, isso só me irritava na realidade. Tinha uma câmera na sala, era legal ver a cara das pessoas esperando alguem abrir aquela porta gigante de vidro. A campanhia de inicio era o nome da família gigantescamente e aí ninguém sabia que aquilo era a campanhia e ficavam batendo no vidro, era meio estupido isso, ai eles trocaram pra uma normal.
A casa tinha um sistema de alarme irritante, um para quando não estravamos dentro da casa e outro pra quando estávamos, e em um ano apenas vi todos nos sendo vitimas dele, ele não ajudou em nada, resumindo, e cada visita por engano da segurança, que só chegava uma hora depois, custava cem euros, cem euros pra NADA, aí meus nervos.
Botões do panico, tinha também, é claro, segundo eles era só apertar a segurança vinha direto sem ligar antes pedindo a sequência de números. Bah, eu pensava, quem vai atacar essa casa? As ovelhas, as lebres, ou o falcão, ele sim, parecia suspeito e misterioso.
Uma noite acabou a luz, eu sozinha, claro, e toda essa tecnologia morreu, fácil assim, e eu dormi com a luz móvel da bicicleta acesa que havia me custado dois euros nas lojas Hema.
Obrigada.
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
a mais velha.
- Eu não consigo dormir, posso dormir aqui com você?
- Tá, vem, deita aqui!
E ela deitava, e ela dormia se eu cantasse, ela ficava arredia quando tinha medo, se fechava em um mundo particular, chorava doído de vez em quando mas na maior parte do tempo bancava a durona.
Sabia falar sobre tudo, tinha opiniões concretas sobre tudo quanto era coisa, sempre me surpreendia
- Você ama sua irmã certo?
- Amo muito Jenny e acho que ela tambem me ama, mas irmãs brigam, é assim não é?
Ela me lambia quando estava com saudades, sempre que me ligavam do carro ouvia sua voz chamando meu nome, tinha crises que nunca entendi tão bem, e chorou muito quando eu ri da sua boneca quebrada, me desculpei, eu juro.
- Qual sua estação do ano favorita, verão ou inverno?
- Não sei te responder isso, gosto das duas, o verão é legal porque tem piscina, mas o inverno é legal porque posso fazer bolas de neve, gosto das duas, não tem como responder isso.
Sabia ser independente, podia passar horas brincando com playmobils e outras horas lendo.
- Só mais essa página Jenny, só mais essa.
A gente brigou diversas vezes, de igual pra igual, ainda mais quando ela queria trapacear nos jogos, eu sempre brigava, até esquecia que era a adulta alí.
- Não vou mais brincar, você está me enganando - as regras em holandês me ludibriavam.
- Não estou não! Você que não sabe brincar.
- Você que não sabe, não quero mais.
- Okay, nunca mais brinco com você.
- Nem eu com você!
E saíamos as duas pra cada lado da casa, meia hora depois estávamos brincando de novo.
- Jenny você seria uma palhaço incrível.
Ela sempre dizia, sempre dizia que eu era louca também, mas em geral eramos loucas juntas.
- Jenny você é louca e eu sei, Jenny Penny Jennina Jenniperina
- Você é louca, você que é.
E rolávamos no chão ou algo parecido.
- Como nascem os bebes, você sabe?
- Claro que sei!
- Ah é como?
- As pessoas fazem sexo oras duh.
- Ah.... - eu com cara de nada, esperando o velho papo da cegonha sei lá.
Seus nove anos às vezes pesavam, ela não sabia o que fazer, quando estava muito perdida conversávamos e ela sempre tinha tanto a dizer, queria ter registrado tudo, como queria.
Ela nunca dizia eu te amo, ao contrário da mais nova, mais a mais nova dizia, menos ela queria dizer, eu fazia cocegas nela dizendo "eu te amo tanto, tanto, tanto", ela somente ria e dizia "você é louca e eu sei"
Nos últimos meses ficou fria, sempre lembrava pra todo mundo que estava indo embora, tratava do assunto com ironia e um certo desdem...ás vezes queria me machucar, parecia, esquecer, se proteger.
Quando parti, foi quem mais chorou, quem mais chorou...
______________________________________
Eu te amo pra sempre pelo melhor e único ano juntas de nossas vidas, pequena.
- Tá, vem, deita aqui!
E ela deitava, e ela dormia se eu cantasse, ela ficava arredia quando tinha medo, se fechava em um mundo particular, chorava doído de vez em quando mas na maior parte do tempo bancava a durona.
Sabia falar sobre tudo, tinha opiniões concretas sobre tudo quanto era coisa, sempre me surpreendia
- Você ama sua irmã certo?
- Amo muito Jenny e acho que ela tambem me ama, mas irmãs brigam, é assim não é?
Ela me lambia quando estava com saudades, sempre que me ligavam do carro ouvia sua voz chamando meu nome, tinha crises que nunca entendi tão bem, e chorou muito quando eu ri da sua boneca quebrada, me desculpei, eu juro.
- Qual sua estação do ano favorita, verão ou inverno?
- Não sei te responder isso, gosto das duas, o verão é legal porque tem piscina, mas o inverno é legal porque posso fazer bolas de neve, gosto das duas, não tem como responder isso.
Sabia ser independente, podia passar horas brincando com playmobils e outras horas lendo.
- Só mais essa página Jenny, só mais essa.
A gente brigou diversas vezes, de igual pra igual, ainda mais quando ela queria trapacear nos jogos, eu sempre brigava, até esquecia que era a adulta alí.
- Não vou mais brincar, você está me enganando - as regras em holandês me ludibriavam.
- Não estou não! Você que não sabe brincar.
- Você que não sabe, não quero mais.
- Okay, nunca mais brinco com você.
- Nem eu com você!
E saíamos as duas pra cada lado da casa, meia hora depois estávamos brincando de novo.
- Jenny você seria uma palhaço incrível.
Ela sempre dizia, sempre dizia que eu era louca também, mas em geral eramos loucas juntas.
- Jenny você é louca e eu sei, Jenny Penny Jennina Jenniperina
- Você é louca, você que é.
E rolávamos no chão ou algo parecido.
- Como nascem os bebes, você sabe?
- Claro que sei!
- Ah é como?
- As pessoas fazem sexo oras duh.
- Ah.... - eu com cara de nada, esperando o velho papo da cegonha sei lá.
Seus nove anos às vezes pesavam, ela não sabia o que fazer, quando estava muito perdida conversávamos e ela sempre tinha tanto a dizer, queria ter registrado tudo, como queria.
Ela nunca dizia eu te amo, ao contrário da mais nova, mais a mais nova dizia, menos ela queria dizer, eu fazia cocegas nela dizendo "eu te amo tanto, tanto, tanto", ela somente ria e dizia "você é louca e eu sei"
Nos últimos meses ficou fria, sempre lembrava pra todo mundo que estava indo embora, tratava do assunto com ironia e um certo desdem...ás vezes queria me machucar, parecia, esquecer, se proteger.
Quando parti, foi quem mais chorou, quem mais chorou...
______________________________________
Eu te amo pra sempre pelo melhor e único ano juntas de nossas vidas, pequena.
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
uma noite nos museus
Fui-me, embarquei-me, cheguei em solo holandês, senti frio, senti medo, foi a semana mais longa da minha vida, não me esqueço, ainda em São Paulo fazia planos pro próximo fim de semana, tinha uma vida tão ativa na minha terrinha e tinha medo de um certo marasmo holandês, era estranho programar planos corriqueiros para uma vida tão completamente avessa que já seria minha na próxima semana. Encontrei! Noite do museu em Rotterdam, relativamente bem perto de onde iria morar, então ao fim de minha primeira mais longa semana da vida, peguei o trem e parti para a tal noite, sozinha, pois nenhum dos meus ainda três contatos no país estava afim de passar a madrugada fria de março andando em museus, claro.
Solidão não é problema, ainda mais em museus, em geral companhias me irritam mais que agradam, pra ser bem sincera, sem querer ser chata nem nada, mas eu nunca sei calcular velocidade dos passos em museus quando estou com outras pessoas, e quando encontro alguém que vai no mesmo ritmo encho o saco da pessoa para irmos sempre juntas e ela acaba ficando com medo de mim, exagero gente, serio!
O sistema era simples, o ingresso era um botom que acendia luzes piscantes e desde que você ficasse com aquilo bem preso seria identificado como participante do evento, paguei acho que uns dez mangos e lá fui andar pela noite escura de Rotterdam com um mapa de museus e isso era tudo.
Pelas ruas tudo que se via eram pessoas com pontos brilhantes no peito, eram minhas primeiras impressões daquele povo peculiar que iria conviver durante um ano inteiro.
Teve uma abertura muito excêntrica na praça central, onde crianças jogaram ao àr balões e tudo, e depois todo mundo foi se espalhando, tinha museu pra caramba de tudo que era assunto e em um curto tempo-espaço, e em cada museu tinha eventos e pessoas e coisas excêntricas, lembro dessas moças no museu de Historia que ficavam pedalando uma bike atrelada ao um tear e então bolsas iam sendo produzidas, e elas davam as bolsas pras pessoas, lembro de um cover do Elvis no museu Naval, de um show muito coisa de outro mundo em frente ao mesmo museu, o vocalista usava sapatos enormes e gritava muito e tudo era assim, intenso demais.
Já batia as 4 da manhã e eu sentia muito sono e frio, decidi voltar pro hostel que havia feito questão de me hospedar pois ficava nada mais nada menos que nas incríveis casas cubiculares de Rotterdam, tudo era meio torto e ao acordar tive vertigem seguida de náusea mas foi divertido, te juro. rs
Voltei pra Haia, cheguei em casa por volta das 14h, os hostparents me chamaram pra bater um papo.
- Percebemos que você gosta de museus! Sozinha no inverno e tudo.
- Sim, eu gosto um bocado.
- Então toma, pegue esse dinheiro e faça essa semana mesma um cartão anual!
Foi um dos melhores presentes, nunca o desprendimento me foi ruim afinal.
Solidão não é problema, ainda mais em museus, em geral companhias me irritam mais que agradam, pra ser bem sincera, sem querer ser chata nem nada, mas eu nunca sei calcular velocidade dos passos em museus quando estou com outras pessoas, e quando encontro alguém que vai no mesmo ritmo encho o saco da pessoa para irmos sempre juntas e ela acaba ficando com medo de mim, exagero gente, serio!
O sistema era simples, o ingresso era um botom que acendia luzes piscantes e desde que você ficasse com aquilo bem preso seria identificado como participante do evento, paguei acho que uns dez mangos e lá fui andar pela noite escura de Rotterdam com um mapa de museus e isso era tudo.
Pelas ruas tudo que se via eram pessoas com pontos brilhantes no peito, eram minhas primeiras impressões daquele povo peculiar que iria conviver durante um ano inteiro.
Teve uma abertura muito excêntrica na praça central, onde crianças jogaram ao àr balões e tudo, e depois todo mundo foi se espalhando, tinha museu pra caramba de tudo que era assunto e em um curto tempo-espaço, e em cada museu tinha eventos e pessoas e coisas excêntricas, lembro dessas moças no museu de Historia que ficavam pedalando uma bike atrelada ao um tear e então bolsas iam sendo produzidas, e elas davam as bolsas pras pessoas, lembro de um cover do Elvis no museu Naval, de um show muito coisa de outro mundo em frente ao mesmo museu, o vocalista usava sapatos enormes e gritava muito e tudo era assim, intenso demais.
Já batia as 4 da manhã e eu sentia muito sono e frio, decidi voltar pro hostel que havia feito questão de me hospedar pois ficava nada mais nada menos que nas incríveis casas cubiculares de Rotterdam, tudo era meio torto e ao acordar tive vertigem seguida de náusea mas foi divertido, te juro. rs
Voltei pra Haia, cheguei em casa por volta das 14h, os hostparents me chamaram pra bater um papo.
- Percebemos que você gosta de museus! Sozinha no inverno e tudo.
- Sim, eu gosto um bocado.
- Então toma, pegue esse dinheiro e faça essa semana mesma um cartão anual!
Foi um dos melhores presentes, nunca o desprendimento me foi ruim afinal.
![]() |
| Rotterdam, das mais modernas cidades holandesas, reconstruída apos bombardeio de 1940 |
quinta-feira, 12 de julho de 2012
Langwer com açucar e com afeto.
Era amor demais.
Fui duas vezes para o norte do país mais plano do mundo junto com a família.
Eram duas horas para atravessar boa parte do território nacional, em nosso carro lotado de ursos de pelúcia, pedaços de lanche e protetor solar.
Era uma casa infinitamente menor que a casa que morávamos em Nootdorp e incrivelmente mais bonita e aconchegante, a sala me dava a impressão de estar dentro de um barco, e de fundo com ela a impressão se tornava mais real, pois o canal era largo e a água seguia calma em pequenas e delicadas ondas, tinha um barco atracado no pequeno píer, batizado de "animo", era da avó das crianças, havia sido dado pelo seu marido quando ela se recuperava de uma fase de fortes dores de cabeça.
A vida em Langwer era docemente contrária a tudo que vivíamos na cidade, tínhamos longos cafés da manhã, todos juntos, todo partilhado, todos tinham tempo de me ouvir por um longo tempo, tentar me ensinar mais holandês, as meninas acordavam e corriam nuas pela casa, pulavam na minha cama, brincávamos de rolar na grama, elas se amavam, nunca brigavam e brincávamos como se o dia nunca fosse terminar, nada de horários marcados, compromissos, pressa e lição de casa.
Amber e eu andamos um dia até o fim da cidade abraçadas, quase tropeçando em nossos próprios pés e tudo que me lembro é do riso dela sobre meus comentários cheios de devaneios sobre as vacas holandesas nos pastos.
Eu ganhei livros em Langwer, me deixaram escolher em um sebo mágico de um velhinho simpático e em uma tarde eu andei sozinha pela estrada observando os potrinhos deitados nos jardins das fazendas.
Hanna inventava brincadeiras cheias de historias e eu e Amber comprávamos todas, no fim do dia sempre apresentávamos para os pais mais um de nossos números inventados durante o dia, eles aplaudiam mesmo sem terem entendido nada, eu ria secretamente.
Tive coragem de pular junto com elas nas águas do canal, meus pés não alcançavam o chão, fiquei lá os abanando por um tempo relaxada dentro de um colete, fomos atrás dos patos para doar pequenos pedaços de pão, mas eles fugiam, era triste.
Fazíamos passeios com o "animo" quase todos os dias e parávamos nas margens para tomar chocomel com biscoitos Sultana e tentar mais uma vez alimentar os patos arredios.
Em uma noite de sol holandês fomos no festival de argolas, casais vestidos em trajes do inicio do seculo passado passavam correndo em carruagens antigas para tentar pegar argolas presas em uma mão de madeira, com uma especie de arma, eu juro, nunca entendi nada, mas achei demasiado incrível, em especial as carruagens puxadas por cavalinhos mini de crinas trançadas.
No último dia, fomos em um festival de balões, pessoas entravam naqueles cestinhos e partiam pelos céus em balões de todos formatos e cores, terminei o dia com um certo torcicolo de tanto olhar pra cima, não me arrependi.
Antes de partir pela segunda e última vez, Suzanne me pegou fitando o canal pela janela da sala enquanto todos se arrumavam pela casa:
- Dando uma última olhada para Langwer? - me perguntou com ternura
- Sim, e lá no fundo do coração fico torcendo para não ser a última vez. - respondi sem desviar o olhar da água calma que se despedia de mim tão quanto eu me despedia dela, eu me sentia tão longe de qualquer coisa ruim, ali, protegida, na sala barco sendo invadida pela serenidade do canal.
E mesmo que tenha sido a última vez, Langwer nunca se dissolveu em mim, habita confortavelmente nas entranhas como um sonho bom em cores saturadas pelo sol de verão.
Como em um rabo de cometa, nas surpresas do tempo, nos presentes do passado.
Com muito açucar e afeto, dank je wel.
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